Opinião: A Imagem Internacional de Coimbra

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Os cidadãos de Coimbra que assinam a Time Magazine tiveram a feliz surpresa de descobrir, na primeira edição de Agosto, uma fotografia panorâmica, em duas páginas, do pátio da Universidade dominando os verdes campos urbanizados do Mondego. E mais, esta imagem, não só integra como abre o dossier intitulado The World’s 100 Greatest Places, onde se encontra rapidamente apresentada uma amostra dos lugares mundiais de interesse cultural e turístico escolhidos pelos correspondentes da célebre revista americana.

Como qualquer imagem, também esta precisa de ser interpretada. Que deveremos ver nela? Convirá primeiro analisarmos a nossa própria reação, feita de muito orgulho e de um pouco de incredulidade. Como? Coimbra, com um discreto empurrão, fez mergulhar na sombra mediática Lisboa e Porto, Évora e Funchal, Braga e Aveiro, e todas as outras cidades e localidades portuguesas tão dignas de figurar neste prestigiado palmarés: só Arouca e a sua muito recente passarela pedonal («The world’s longest pedestrian suspension bridge») mereceu partilhar com Coimbra a honra de representar o país. Por que extraordinário golpe de sorte, a candidatura ao título de Capital Europeia da Cultura 2027 se viu assim destacada, e de um modo tão oportuno (a semanas da entrega do dossier que decidirá em parte do futuro da Candidatura)?

Mas, passado o primeiro instante de encantamento, regressamos à nossa habitual imodéstia: Coimbra ocupa aqui o lugar que lhe cabe por direito, entre os melhores do mundo. Não fomos, e a Time assim o recorda, a primeira capital do Reino, não será a nossa Universidade a mais antiga e célebre, não foram o nosso rio e os seus amores celebrados pelo grande poeta da língua portuguesa? Não somos nós a cidade da Saúde, da Ciência, do Património UNESCO, dos festivais, do Desporto, da qualidade de vida, a cidade de Pedro e Inês, de Pedro Nunes e de Zéca Afonso? Não possuímos nós tudo para agradar aos que, do mundo inteiro, têm o bom gosto de nos visitar? Em suma, não somos nós os melhores?

Mas uma voz um pouco mefistofélica, a voz do “espírito que diz sempre não”, murmura-nos ao ouvido: não deveremos adivinhar nesta notícia maravilhosa (que vale bem uma medalha olímpica) a intervenção de um poder oculto: que mão providencial por detrás de um tal prodígio? Pois não é verdade que, ao abrigo desta brilhante imagem, Coimbra esconde defeitos e insuficiências que todos nos comprazemos em denunciar e que os outros descobrem em nós com a pérfida lucidez da cobiça?

E talvez valha a pena, para termos uma noção mais ajustada do que somos no olhar dos outros, regressar ao breve texto que acompanha a fotografia: “Fresh claims to fame”, isto é, “novos títulos para a fama”, entre os quais o Centro de Arte Contemporânea, a requalificação do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha e… o muito sueco Hastens Sleep Spa. Este pequeno hotel, que promete noites de excelente sono, é um indício, a par de muitos outros, da rápida internacionalização de Coimbra, e é talvez o que mais importa hoje.

Coimbra europeia, Coimbra digna da confiança – e dos investimentos – dos Europeus, é com efeito uma das «greatest places in the world» – e não somos nós que o dizemos!

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