Opinião: “Sabe quem eu sou?”, ou a metáfora de um borboto cósmico

Posted by

De onde estou vejo o mar azul-esverdeado, avisto a dobra do horizonte. Há gaivotas pousadas no prateado ondejante, nesse manto líquido que parece veludo, como um campo macio de lavrar. Tenho visto o sol vir aqui banhar-se ao fim da tarde, onde o mar gorjeia e a fímbria se oferece em espuma, como um pólen marinho em rebentação.
De onde estou vejo um parapente sobrevoando a praia. É um ponto pequenino. Talvez este tenha sido o primeiro respirar de um meu pensamento. Detenho-me a pensar em como, na realidade, me entedia a excitação do poder da quadrilha que atinge o gáudio ao achar-se acima dos demais. A soberba daqueles que perguntam “Sabe quem eu sou?”, decepando com um machado o halo da igualdade. Volto-me de novo para o parapente que sobrevoa a praia. Lá em cima é pequenino como um borboto. Na areia, um copo de papel esvoaça vazio. Tem o formato que os físicos garantem ter o universo.
O universo tem, presumivelmente, um formato cilíndrico e é apenas um dos universos possíveis. A física quântica deixou de trabalhar com a noção de universo, passou a considerar o multiverso. Isto porque crê que existem mais universos para além do nosso.
Há 13,7 mil milhões de anos, ter-se-á dado uma explosão, que ganhou o nome Big-Bang. No fundo, não terá sido uma explosão, mas antes uma expansão. Como o elástico que soltamos quando está na sua tensão máxima. Uma expansão muito acelerada de matéria e energia que degenerou numa concentração de estrelas. Estas, por sua vez, agruparam-se em galáxias.
A ciência calcula que possa haver, no mínimo, 200 mil milhões de galáxias. Uma delas é a nossa, a Via Láctea, que se terá formado a partir da fusão de dois sistemas estelares. Apesar disso, a Via Láctea não é assim tão grande: tem apenas 100 mil milhões de estrelas. Uma dessas estrelas é o sol. Em torno dessa estrela giram cinco planetas anões, 179 luas, uma grande quantidade de corpos celestes, como asteroides, cometas e outros, bem como oito massas planetárias sem luz própria. A terceira dessas massas planetárias contadas a partir do sol é a Terra.
A ciência calcula que no nosso planeta haja cerca de 8,7 milhões de espécies vivas, embora só tenha conseguido classificar uma pequena parte. Uma dessas espécies é a nossa. Taxonomicamente, Homo Sapiens. A nossa espécie tem 7,8 mil milhões de pessoas a viver atualmente. Uma delas é você. Parabéns! Até 2100 seremos 11,2 mil milhões.
Resumindo, quando lhe perguntarem com palavras de soberba “Sabe quem eu sou?”, caso não queira abreviar a resposta para “Sei, é um borboto!”, poderá sempre usar a explicação mais prosaica: “Você é um entre 7,8 mil milhões de pessoas, que integra as 8,7 milhões de espécies vivas que habitam o planeta Terra, que é um dos oito sem luz própria a girar à volta do sol, que é apenas uma das 100 mil milhões de estrelas que compõe a Via Láctea, que é, por sua vez, uma entre 200 mil milhões de galáxias existente num dos universos possíveis e que um dia deixará de existir”.
Julgo, mesmo assim, que possa haver quem continue a achar que tem direito a sobrepor-se aos outros… a gerar ganância, prepotência e ódio.
Mas, na insignificância cósmica que representamos, há uma resposta que parece estar reservada e que dá sentido à nossa individualidade. O universo é um lugar extremamente inconstante e cheio de atividade. O nosso planeta é um pontinho minúsculo desse universo. Fora dele não vivemos. E dentro dele só uma área de quatro por cento é propícia à vida humana. A física quântica não exclui que a nossa existência seja um milagre da vida. A física quântica não é contrária à ética, à religião, ao sentido humanista. Dá-nos a perspetiva de que, no cosmos, não há uns maiores que outros. Esta é a maravilhosa ética cósmica, que faz falta a muito boa gente.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.