Opinião – Questões de exemplo

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Numa das suas tiradas geniais, o grande escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro argutamente afirma que “o grande mal da nova geração é que a gente não pertence mais a ela”. À medida que o tempo se escoa, há uma natural melancolia que os mais velhos vão sentindo, ao contemplarem aqueles que têm toda a vida à sua frente. Por outro lado, já no século II antes de Cristo o sensato autor do Eclesiástico achava por bem recomendar aos mais jovens: “Filho, ampara o teu pai na velhice, não o desgostes durante a sua vida; mesmo se ele vier a perder a razão, sê indulgente, não o desprezes, tu que estás na plenitude das tuas forças.” Os conflitos geracionais não nasceram pois agora…
Contudo, num país e num continente em que a pirâmide etária está invertida, há frequentemente um domínio muito pouco saudável de uma perspetiva envelhecida dos problemas da infância e da juventude. Essa hipertrofia tem sido bem patente ao longo da pandemia, com uma desvalorização dos graves problemas e potenciais consequências para o desenvolvimento, a todos os níveis, dos mais jovens.
Ao nível do ensino superior, há que destacar o extraordinário trabalho feito por docentes, alunos e administrações universitárias em montar cursos online quase do dia para a noite e em suprir muitas das dificuldades que foram surgindo. A questão da avaliação dos alunos foi, porém, ensombrada pela questão da possibilidade de fraudes académicas em contexto de avaliação remota. Esta questão surge naturalmente associada a preocupações legítimas de justiça na avaliação.
Ora os alunos do ensino superior, apesar da juventude, são antes de mais cidadãos adultos que estão a completar formação a nível superior da qual depende criticamente o seu próprio futuro profissional. Longe vão os tempos, felizmente, em que a universidade era uma mera fábrica de pouquíssimos bacharéis, membros de uma reduzida elite cujo futuro estava garantido à partida. Assim, sendo crucial, para os próprios, a formação que adquirirem, a preocupação com a fraude académica acaba por conter também um toque de paternalismo em que se procura evitar que o aluno, adulto, se prejudique a si próprio.
Além disso, foram identificados elementos inaceitáveis de vigilância em certos mecanismos de controlo da fraude académica, propostos em instituições de ensino superior para avaliações em contexto remoto. Preço a pagar para garantir a justiça? Só que tais mecanismos são apresentados por instituições que constituem naturalmente uma referência de boas práticas, e que têm fortes obrigações educativas e pedagógicas. Tais excessos de vigilância educam toda uma geração a aceitar como normal o esbater das fronteiras entre a vigilância e o controlo, entre o espaço público e o espaço privado. O preço é demasiado elevado.
Como sempre aconteceu e tem acontecido, é nos tempos de crise que se revela o melhor e o pior das pessoas e das instituições. O melhor e o pior que temos demonstrado nestes últimos e difíceis meses é também um poderoso exemplo para as novas gerações, que nas crises do futuro não deixarão de colocar em prática o que agora aprenderam. Esperemos, para nosso bem, que alguns deles não deixem de seguir os bons conselhos do Eclesiástico.

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