Opinião: Praxe solidária

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Terão sido mais de duas centenas as vidas ceifadas, na passada semana, por cheias provocadas pelas chuvas torrenciais que desabaram sobre vários países europeus.
A Alemanha, uma das nações mais poderosas e mais desenvolvidas do Mundo, foi a mais fustigada e aquela onde se registou balanço mais trágico – a demonstrar que a riqueza e até a tecnologia avançada pouco podem quando se desafia a Natureza…
A chanceler Angela Merkel, ao visitar as zonas mais afectadas, afirmou, consternada, que a língua alemã não tinha palavras que pudessem exprimir tamanha destruição.
Consolador foi ver a onda de solidariedade que se gerou, de forma espontânea, com alemães e estrangeiros a acorrer aos locais mais atingidos, com o intuito de ajudar.
As reportagens agora transmitidas pelas televisões de todo o Mundo, fizeram-me recordar outras cheias com balanço ainda bem mais mortífero, ocorridas em Portugal nos anos 60. Embora já tenham passado 54 anos, estou certo de que quem testemunhou essa tragédia nunca mais conseguiu apagar da memória as tremendas chuvadas que em poucas horas caíram sobre o Ribatejo na noite de 25 para 26 de Novembro de 1967, fazendo com que os cursos de água saltassem dos leitos, transformados em armas letais.
A versão oficial registou 462 mortos. Mas quem esteve no local contabilizou mais de 700 vidas perdidas.
Entre os voluntários que então acorreram ao Ribatejo estavam muitos estudantes da Universidade de Coimbra. A par com colegas de Lisboa, foram incansáveis no auxílio aos vivos, enquanto da lama se iam recolhendo as centenas de cadáveres.
Na época eu ainda era estudante, mas já dava os primeiros passos no jornalismo, uma actividade então muito condicionada pela Censura prévia imposta pela ditadura salazarista. E recordo como essa Censura proibiu todas as notícias que faziam referência ao meritório trabalho dos estudantes que acorreram ao Ribatejo para auxiliar as vítimas das inundações.
Ora esse espírito altruísta é apanágio de todas as gerações de jovens, sempre disponíveis para apoiar causas nobres, desde que para tal sejam sensibilizados.
E nesta época de pandemia que continuamos a viver, não é preciso esperar pelas catástrofes naturais, já que muitas são, infelizmente, as instituições a carecer de auxílio, mão apenas material, mas também de voluntários que ajudem nas tarefas mais diversas.
Conhecendo eu o carácter solidário do actual Presidente da AAC, bem como o do Dux Veteranorum, penso que não será difícil, com o apoio de ambos, adaptar algumas das praxes coimbrãs a acções de ajuda a tantas organizações que disso carecem.
E essa será a mais meritória forma de uma verdadeira integração no espírito fraterno e solidário que sempre caracterizou a Academia de Coimbra.

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