Opinião: Os nómadas digitais estão sempre de férias?

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Arthur C. Clarke, numa famosa entrevista concedida em 1974, ainda na sequência do argumento que escreveu, com Stanley Kubrick, para o filme “2001 – Odisseia no Espaço” antecipava, assim, o futuro do trabalho, referindo que os computadores, estando disponíveis de forma compacta nas nossas casas (“compacta” quando comparada com as máquinas que, no início dos anos 70, ainda ocupavam uma sala inteira), permitiriam acesso fácil a toda a informação necessária ao nosso dia a dia e tornariam “possível vivermos onde quer que queiramos (…) um executivo poderá quase viver em qualquer local da Terra e gerir o seu negócio através de um aparelho destes”, aliviando a pressão da vida nas cidades, procurando o campo e mantendo as interações sociais. Esta previsão é bastante semelhante ao que hoje conhecemos por “nómadas digitais”.
Um nómada digital é alguém que, tirando partido da tecnologia, executa as tarefas associadas à sua função sem estar obrigado a um local fixo de trabalho, ou seja, adotando um estilo de vida nómada. Tal significa que pode aproveitar o Verão em Portugal e, qual andorinha, partir quando o Verão terminar, procurando outras paragens. Quem procura estas oportunidades?
Qualquer pessoa que seja suficientemente desapegada das suas rotinas e que consiga viver com o mínimo que consiga colocar na bagagem, associada a uma empresa que lhe permita executar o seu trabalho dessa forma ou sendo freelancer em áreas que não dependam de locais fixos e que trabalhe em áreas em que estas mudanças não causem constrangimentos. Madeira, Açores, Lisboa, Porto estão listadas como bons destinos na atração de nómadas digitais internacionais a Portugal, naturalmente, por curtos períodos de tempo. Outra opção, é ir viajando de carro e conhecendo. Dizia-me o Hugo, um ex-aluno de Gestão de Empresas, numa ocasião em que voltámos a conversar, quando o Público o entrevistou precisamente pelo seu testemunho de viajante, numa carrinha, conhecendo e trabalhando ao mesmo tempo: “para trabalhar, basta estar num local onde haja Internet”.
Outro caso que ouvi, de um aluno Alemão em Erasmus em Mestrado: à chegada, anunciou ao seu orientador que tinha vindo por causa do surf e, estando em Portugal, seria interessante fazer o Mestrado cá. Simples, não é? Ser nómada digital é livrar-se das casas compradas que nos prendem aos lugares, abandonar o trabalho para a vida se já não nos satisfaz, é experienciar, cortar com rotinas, aproveitar o melhor dos mundos, reinventar-se, negociar condições com empresas, dar-se à aventura, sair do conforto do conhecido. O digital é igual em qualquer lugar… haja ligação à Internet.
Referir hoje os nómadas digitais faz todo o sentido: os nómadas digitais transmitem a sensação de que estão sempre de férias, trazendo à nossa memória a famosa citação de Confúcio “escolhe um trabalho de que gostes e não terás de trabalhar um único dia na tua vida”. Atrevo-me a reformular “escolhe um trabalho que gostes e um sítio novo e não terás de trabalhar um único dia na tua vida”.

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