Opinião: No pasa nada

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Em Janeiro de 1948 Cuba aderiu ao Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, um acordo internacional que visa promover o comércio internacional e à Organização Internacional do Comércio (sucessora do GATT) desde Janeiro de 1948, organização esta a que pertencem mais de uma centena de países. Curiosamente, foi em Havana que foi assinada a Carta que criou a OMC. Também pertence ao G33, um grupo de quase 50 países em desenvolvimento, unidos na defesa dos seus interesses, nomeadamente os relacionados com agricultura. Mais recentemente, a União Europeia assinou um acordo com o grupo de países de África, Caraíbas e Pacífico (ACP), de que Cuba faz parte, com o objectivo de estabelecer um quadro de cooperação em matéria de desenvolvimento e comércio, visando essencialmente erradicar a pobreza que atinge os Estados que compõem o ACP. Cuba também uniu esforços com outros países no denominado G90. Apesar de tudo, Cuba mantém-se na mesma, num estado de revolução perpetuada, um PREC que nunca mais tem fim. E a culpa disso vem sendo atribuída a um único país – Estados Unidos da América.
Os mais recentes acontecimentos ocorridos em Cuba levaram o nosso PCP a expressar-lhe a sua solidariedade, condenando a “agressão imperialista” norte-americana, e foi convocada uma manifestação de apoio ao regime de Miguel Díaz-Canel. Para o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), liderado pela dirigente comunista Ilda Figueiredo, Cuba é “exemplo de coragem e dignidade, de soberania e participação popular”. Para a Associação de Amizade Portugal-Cuba, dirigida pelo comunista António Fidaldo, e para a CGTP-IN, liderada por Isabel Camarinha, outra militante do PCP, a concentração é justificada porque Havana resiste há mais de 60 anos ao bloqueio imposto pelos EUA, e que foi isso que fez com que a população agora tenha saído à rua. Nem uma palavra se diz sobre os pedidos de liberdade ouvidos em Havana. No pasa nada!
Para estas organizações promotoras da manifestação parece ser irrelevante que em Cuba se reprima e puna a dissidência e a crítica pública, as detenções arbitrárias de defensores dos direitos humanos ou de jornalistas independentes, com recurso a espancamentos, difamação pública e restrições à circulação. Para quem se manifestou a favor do governo cubano ignora que este continua a usar detenções sem mandados para perseguir e intimidar críticos, activistas independentes ou adversários políticos. Para o governo que aquelas organizações foram apoiar em manifestação, as pessoas que em Cuba participam em marchas são delinquentes, tal como é ilegal o grupo Damas de Branco (fundado por esposas, mães e filhas de presos políticos), tal como a Comissão Cubana de Direitos Humanos. No pasa nada! A culpa disto tudo também deve ser do bloqueio norte-americano.
Quem se manifestou a apoiar o actual governo cubano tem de saber que este controla quase todos os meios de comunicação e que restringe o acesso a informações do exterior. Já agora, para quem se arroga defender os direitos dos trabalhadores, é no mínimo estranho que apoie uma Cuba que permite apenas uma confederação de sindicatos controlados pelo Estado – a União Central dos Trabalhadores de Cuba – e um país que continua a violar as convenções (que ratificou) da Organização Internacional do Trabalho, especificamente em relação à liberdade de associação, negociação colectiva, protecção de salários e proibições de trabalho forçado. Também deve ser tudo culpa do imperialismo norte-americano. No pasa mesmo nada!

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