Opinião: Memória

Posted by

O apagamento da memória é um sintoma de demência e uma característica de muito fanatismo. Um egoísta convence-se de que está fazer uma obra única, imperdível, que só depois dele é que nasce o Sol. Muito do que se passa hoje nos Covões é fruto de um processo não estruturado, não reflectido, ao sabor de ocasionais vislumbres ou fruto de luz fugaz de um pirilampo político. A missão de oferecer saúde de qualidade foi desvirtuada com o aparecimento da urgência do HUC onde as condições de trabalho e o conforto do utilizador /cliente é inóspita, dependente da capacidade de multiplicação dos funcionários, da assertividade das equipas e do número dos que recorrem o serviço. Nenhuma casa comercial aguenta uma procura ilimitada 24 horas por dia. Fruto de decisões discutíveis os doentes estão num mato sem cachorro, sem medicina familiar, sem resposta em muitos dos lugares que já tiveram utilidade pretérita. Reduzimos a oferta até à situação vigente. Um doente e um funcionário no HUC sofre uma injustiça. Não há dedicação possível, empenho, vontade quando a condição gera ansiedade e fadiga.

O apagamento da memória ofendeu centenas de pessoas que se dedicaram durante 45 anos ao hospital dos Covões e ao Centro Hospitalar de Coimbra. Há um desejo de realojar tudo, requalificar tudo, renomear, arrancar das paredes, libertinamente e de modo avulso e sem ganhos visíveis passar lixívia na história. As enfermarias tinham cores e nomeavam-se assim. Agora têm letras. Podemos estar perante um intervenção estrutural para construir um lugar de ambulatório, de missões minor, de tratamentos menores, mas estamos? Há um plano que se possa apreciar?

O PS divide-se em vários grupos e por vezes fala o de Manuel Machado, outras vezes é o de Marta Temido, há momentos em que sussurra Rosa Reis Marques. São do mesmo partido, mas dizem coisas diferentes para os círculos próximos, o que deixa todos sem saber o que se passa. Carlos Santos é doutro PS ainda. Também podemos estar perante um embuste urdido para nos enganar em tempo de eleições. Dividem-se para reinar nos votos. A Comissão Parlamentar votou unanimemente (com PS) um relatório que não pode ser a opinião da Ministra. Manuel vetou a Maternidade no HUC mas a ACSS e a ARS permitem. Cheira a fantasia.

Sabemos como Portugal é complexo na relação de ideias e na construção de projectos. Imaginem os condóminos de um prédio. É raro aquele em que todos pagam, aquele em que se chega ao consenso na obra, em que harmoniosamente se define os embelezamentos ou manutenções a realizar. Agora projectemos isso para o CHC. Se o PS tem quatro ideias juntem as dos restantes partidos e temos um arco-íris, uma salada de rúcula, espinafre, alface, tomate, queijo, atum…O impossível acontece.

Apagar a memória é, no final, o maior dos crimes. Retiraram-se os serviços dos seus espaços, fecharam-se obrigações com décadas, extinguiram-se missões avaliadas, premiadas, certificadas (com custos de milhões deitados fora) e depois fizeram-se os CHUC onde há mais funcionários que antes (a soma piorou), onde há mais insatisfação que antes da fusão (a soma ofendeu) onde há problemas de estacionamento insanáveis e insanos, onde há serviços que produzem muito menos que os anteriores separados. Uma estrutura que não é amiga do ambiente (nos CHUC ainda não se separa lixo), que não é amiga dos doentes (os clientes), que é mais cara, mais inóspita, apesar do esforço dos seus funcionários. De alguma coisa desta falou Maló de Abreu num jardim maravilhoso para uma audiência que aguentou o calor tórrido do 15 de Julho. Os Covões não desarmam e são a espinha na garganta de Carlos Santos e vai sangrar, vai doer, se o resultado das eleições autárquicas surpreender o PS, ou devo dizer os PS?

 

Diogo Cabrita escreve ao sábado, semanalmente

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.