Opinião: Humanidade negada a Paulo Rangel

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Foi difundido pela internet (redes sociais) um vídeo onde surge o eurodeputado Paulo Rangel, ao qual ele reagiu, afirmando: «Um vídeo depois de um excesso num jantar com amigos, há anos em Bruxelas, tornou-se viral. Não sei quem filmou, guardou e só agora divulgou. Deploro que o tenha feito, violando os limites da vida privada.”
Tentando ser muito prático numa breve reflexão sobre ética e moral (no fundo, sobre liberdade), eu acho que é impossível exprimir a essência do que é bom ou do que é mau, pois são valores transcendentais. Tal não invalida o inegável impulso humano de estabelecermos uma visão do mundo que de alguma forma guie as nossas condutas, uma noção ética do que não podemos fazer (uma visão que vai sendo alterada ao longo dos tempos). Ou seja, é inevitável formularmos juízos de valor, e por isso a sociedade vai construindo normas, nomeadamente penais, que prevêem sanções para quem assuma determinado comportamento contrário.
Tudo o resto, isto é, tudo aquilo que fica para além das condutas proibidas, encontra-se na disponibilidade individual, sendo por isso normal que cada pessoa idealize comportamentos do que acha que se deve fazer. Infelizmente, é muito comum assistir alguém argumentar que a sua visão particular do mundo é a mais correcta, até a única correcta, afirmação logicamente falsa e, acima de tudo, uma negação da humanidade de todas as outras pessoas com visões distintas. Vale por dizer, em relação a Paulo Rangel, que o dito vídeo é inócuo, pois nada de ilegal é exibido. Então por que razão ele se tornou viral, de tal forma que o eurodeputado teve a necessidade de explicar ou justificar uma acção que se encontrava na esfera da sua liberdade individual?
Ele teve de o fazer porque o relativismo moral impera nas redes sociais (e não só). O relativismo moral é desumano porque nega a humanidade dos outros. Levado ao limite, qualquer conduta poderia ser justificável dependendo da motivação (recordam-se da proposta do grego Varoufakis de pagar a turistas para filmar comerciantes, com o intuito de apanhar quem fugia ao fisco, o que implicava filmar também quem nada de ilegal fazia?), ou do cartão partidário e cargo ocupado (não me recordo de alguém criticar Ferro Rodrigues e Graça Freitas que foram passar um fim de semana ao Algarve, em plena pandemia, com aulas suspensas e restrições de circulação em vigor), da raça (são demasiados os exemplos do Mamadou Ba), da religião (o director da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos foi despedido porque há 23 anos atrás, quando ele era humorista e tinha 25 anos de idade, fez num espectáculo uma piada que o rabi Abraham Cooper, do Centro Simon Wiesenthal, considerou ofensiva, pois que “ninguém tem o direito de troçar das vítimas do genocídio nazi”, como se um dia não tivéssemos todos apoiado o Charlie Hebdo, com o argumento de que não existe liberdade de expressão se só podemos dizer aquilo que não ofenda ninguém), ou da ideologia (aqui na vizinha Espanha, o político Pablo Iglesias dizia que um determinado político de direita era perigoso porque tinha um chalet, mas nele podiam confiar quando comprou um. A justificação que deu foi, cito: “Mi casa me la pago yo trabajando, con mi dinero. Eso no es ser casta”; entre nós, também o bloquista Ricardo Robles não foi um “porco capitalista” quando colocou à venda um edifício em Alfama por 5,7 milhões de euros (sem inquilinos), depois de o ter comprado à Segurança Social por 347 mil euros, pois parece que foram razões familiares que determinaram a sua conduta). Os exemplos são infindáveis.
Concluo dizendo que, da minha parte, é desumano o que fizeram ao Paulo Rangel. Acredito que ele tenha a capacidade para ultrapassar isto. O mesmo não consigo dizer das pessoas mais frágeis, desde logo os menores de idade, inúmeras vezes humilhados em vídeos espalhados pela internet. A tecnologia de hoje, instantânea e na ponta dos dedos, permite níveis de violência que chegam a ser insuportáveis, com consequências irreparáveis. Já escrevia o filósofo Stanley Cavell: “Nada é mais humano do que o desejo de negar a nossa humanidade”.

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