Opinião: Há sempre alguém que resiste

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O ponto de encontro era ali à Brotero. Homens e mulheres entre os vinte-e-poucos e os sessenta anos, esperavam o autocarro que os levaria a Lisboa, em protesto contra o despedimento de seus colegas. No mundo em que os trabalhadores são considerados “recursos humanos” vai-se perdendo, a pouco e pouco, o laço de humanidade que liga os mais velhos aos mais jovens.

Mas ali sentia-se uma espécie de clima de aprendizagem, um ambiente de passagem dos valores que são, na classe trabalhadora, trincheira de vida e dignidade. Um dos mais velhos apontou para um jovem grevista e disse: “corajosos são estes, os novitos, que dão o peito às balas mesmo sabendo que isso lhes vai custar a carreira profissional, e sabe-se lá se o emprego”.

Os mais velhos vinham já dos CTT públicos, passaram depois a ser trabalhadores da PT e agora, despromovidos a “colaboradores” da Altice, estão à espera que a senhora holandesa se desembarace deles, e dos direitos que foram adquirindo. As multinacionais precisam de carne nova, sem vínculo a nada que a prenda à dignidade dos humanos. E servem-se da “flexibilidade laboral” e seus regulamentos para “reorganizar” as empresas como quem muda a água às azeitonas.

“Nem sabemos quem são os donos disto” – dizia-me um pré-reformado. “Só sabemos que nos compram e vendem como se fossemos apenas coisas”. Mas não são. Por isso rumaram a Lisboa, grevistas em protesto contra o despedimento de mais de 200 trabalhadores.

Uma e outra vez, os beneficiários da assimetria dos rendimentos tentarão convencer-nos (e em larga medida serão bem-sucedidos) de que a competitividade das empresas é tanto maior quanto mais baixos forem os salários e mais parcos os direitos dos trabalhadores. E o pior é que os governantes de há muito são facilitadores desse mecanismo de favorecimento de que, depois, serão beneficiários. É vê-los saltar de empresa em empresa, de milhão em milhão, defendidos pelas leis que eles próprios patrocinam.

Para as grandes empresas multinacionais, há muito que a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) deixou de ser um problema. Na verdade, ninguém sabe muito bem como é que a ACT fiscaliza o cumprimento das leis laborais. O que se sabe é haver situações em que o crime compensa, conforme os ensinamentos da grande escola de Chicago, onde fizeram carreira de sucesso Al Capone, primeiro, e Milton Friedman depois.

Assim, depressa se transformaram as contra-ordenações num custo de operação, uma linha mais, apenas, na folha de excel em que os lucros se arrumam e as vidas se destroem.

Os trabalhadores que agora se despedem não são desnecessários – são um estorvo. O que se quer é que no lugar daqueles cheguem à empresa subcontratados que nem “colaboradores” hão de ser – braços, apenas. Proletariado que tem a ilusão de que o diploma por que lutou no banco da escola lhe dará estatuto mais “elevado” do que o do operário dos tempos dos seus avós. Puro engano. Aprenderão à sua custa que, na tal luta de classes, “classe média” não passa de um rótulo vazio para enganar os tolos. Quem trabalha e ganha salário, de seu não tem mais do que os braços.

Entretanto, saberemos dos lucros fabulosos recolhidos pelos negociantes das comunicações. Nada que lhes cale o queixume dos “contextos muito adversos” e do “ambiente regulatório hostil” que os relatórios de contas hão de desmentir, quando já for tarde demais para os 200 trabalhadores a quem se aponta a porta da rua.

O autocarro partiu. Se aquela marcha fosse metáfora havia de ser o refrão daquela canção que o Adriano (Correia de Oliveira) deu voz: “há sempre alguém que diz não”.

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