Opinião: À Mesa com Portugal – Parem de chamar nomes às cabras

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Custa-me a difamação que se faz da cabra. O infeliz do animal não tem culpa nenhuma, mas quer-me parecer que na família, só mesmo o cabrito é que escapa. Os outros estão todos sujeitos a uma péssima reputação. E é pena, pois tínhamos muito a aprender com as cabras, o seu espírito de sobrevivência é uma lição de vida. Mas, por estas e por outras, gostava de ajudar a reabilitar a fama da cabra. É que não me parece justo que a ovelha seja a boazinha da situação, a obediente, a certinha, a que segue o rebanho. E a cabra seja sempre tão mal vista. Logo, logo, basta chamar cabra a alguém para a situação soar mal e ter segundas intenções. E o masculino ainda pior, soa mesmo muito mal. Da crítica social à metáfora religiosa, a cabra está sempre em maus lençóis. A ovelha e o bom pastor versus a forma física chifruda que se dá aquele que não se deve dizer o nome para não atrair más energias.
E depois se se quer dizer que não boa rês, é só afirmar “que é mesmo enxertado em corno de cabra.” Se o animal tem má fama, parece que o corno ainda mais. Mais um ponto a desfavor do bicho que não tem culpa nenhuma. E o bode expiatório? Todos sabem o que significa… e ninguém gosta de o ser, mas porque tinha de ser o bode e não outro animal?
Podíamos fazer uma leitura de acordo com a cultura greco-romana relacionada com os sátiros para compreender muito desta má fama e agressividade contra a cabra e o seu companheiro, mas prefiro falar de outras coisas. Realmente, é muito raro termos rebanhos de cabras. A existirem, só mesmo em lugares onde as ovelhas não se dão bem. De outro modo, como me disse uma vez um pastor na Serra da Estrela “pastor que é pastor não tem mais que três cabras por rebanho!”. Demorei a perceber porquê. Primeiro, pensei que fosse por o leite não ser de boa qualidade. Não. O leite, na verdade até é o mais parecido com o leite materno, por isso, cada casa tinha sempre uma cabrinha para alimentar os mais novos e os mais velhos. Pelos vistos, a razão para tal controlo estava no dente afiado e destruidor da cabra e na dificuldade em controlar o seu feitio “encabriolado”.
Por isso, é que em muitos lugares onde a pastorícia era o principal sustento, se limitava o número de cabras que podiam integrar os rebanhos e se multava de forma pesada quem deixava as cabras à solta. Em alguns casos, determinava-se que cabras “só à corda.” Às vezes, até se dizia que era má sorte nascer cabra, rapidamente iam para a panela para não destruírem as culturas.
Sim, a ovelha é mais obediente e segue a ordem. Deixa-se levar no rebanho. Segue as ordens do pastor. A cabra salta, pula, equilibra-se até na mais difícil geografia. Come o que lhe aparece à frente, não é esquisita, não precisa de ter somente pasto fresco para sobreviver. É desenrascada e não se deixa atemorizar. Gosta de brincar e olha para nós não com ar pachorrento, mas com ar decidido e brincalhão.
A cabra e o seu macho, o bode, precisam de ser reabilitados. E não é apenas porque temos uma extraordinária diversidade genética associada às raças autóctones. Sugiro uma pesquisa acerca das Raças Caprinas Algarvia, Bravia, Charnequeira (Alentejana e Beiroa), Preta do Montesinho, Serpentina, Serrana (Transmontano, Jarmelista, da Serra, Ribatejano). É porque a nossa cozinha faz-se muito do que a cabra nos dá. Negalhos e Chanfana (Serras da Lousã e do Açor), Burulhões (Beira Baixa), Maranhos (Pampilhosa e Sertã) , Cabrito à Moda de Monção, Cabrito Estonado, Queijo de Cabra, Tigelada de Proença-a-Nova feita com leite de cabra e mais e mais. Tanto a dizer-nos que é tempo de parar de chamar nomes à cabra e ao seu parceiro, eles merecem o nosso respeito.

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