Opinião: O ranking

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Quando a primavera promete fazer as despedidas, porque o tempo não para e o calendário tem de virar as folhas, aí temos os ranking das escolas que fazem babar de entusiasmo muitos dos que, só nesta altura, pensam que a Educação é assunto importante.
Para que serve este instrumento? Em boa verdade, para nada. E porquê? Porque não avalia realmente a prestação global do trabalho das escolas, mas se limita a verificar uma das componentes do que é a Educação, exatamente a que advém da aleatoriedade dos resultados dos exames, esquecendo tudo o mais que faz parte do trabalho de um estabelecimento de ensino e que é fundamental na formação global das gerações jovens.
Nós sabemos que perante uma prova de exames há alunos que ficam verdadeiramente bloqueados, se não durante toda a prova, pelos menos durante vários minutos. Nos meus quarenta e quatro de profissão, não foram poucos os examinandos que encontrei numa destas situações sendo que, à medida que os anos foram passando, as instruções iam sendo mais rigorosas no sentido de não prestarmos grande “socorro” a quem se vê largos minutos perante um papel em branco sem saber por onde começar.
E não há nenhuma surpresa quanto a resultados de avaliação, quando sabemos que continuam a frequentar escolas alunos que apenas comem a refeição que a ação social lhes faculta diariamente, que continuam a ajudar a família em trabalhos após as aulas ficando com pouco tempo para estudarem, que vivem numa casa que é pouco mais que um tugúrio.
Não tenhamos receio de pôr os nomes às coisas e assumirmos que a desigualdade social resulta em desigualdade na Escola.
Da minha leitura, é isto que se pode concluir do ranking. Ou seja, quase nada. E não entendo lá muito bem o júbilo de escolas perante os resultados a que chegaram e que foram consequência das condições objetivas da aprendizagem que os alunos lhes permitiram ter.
Eis porque, por muitas variáveis que introduzam nestes trabalhos ranquionistas (desculpem o palavrão), de fora ficará sempre o que só pode ser avaliado por quem sente e conhece o trabalho que foi feito e que é capaz de identificar de onde os alunos partiram e onde chegaram. E se os docentes dão o seu melhor, muitos alunos reconhecerão um dia o que estes professores fizeram por eles, ajudando-os a integrarem-se numa sociedade altamente competitiva, a encontrarem rumos para as suas vidas. É claro que muitos outros não o reconhecerão, mas isso faz parte da nossa passagem pela terra e da maneira como olhamos para o mundo que nos rodeia e para o nosso próprio umbigo. Mas nem sequer todos sabem ou podem ter a possibilidade de ser gratos a quem por eles fez o melhor que sabia e podia.
Quero então fazer deste texto e destes ranking uma singela homenagem aos docentes que trabalham em condições difíceis e, muitas vezes, sem reconhecimento social, mas que se entregam à profissão de alma e coração, sempre, contraventos e tempestades.
Pela minha parte, grato que estou a muitos dos que me ensinaram, não esqueço em primeiro lugar a minha professora primária, dona Cremilde Celeste Oliveira, que nos deixou há três ou quatro anos, à porta dos cem, e que na Póvoa de Varzim ensinou não só as primeiras letras, mas também muito do nosso saber estar em sociedade e tendo tido, quase sempre, um enorme grupo de alunos que reconhecem o trabalho que desenvolveu e que durante anos fizeram questão de a encontrar, enquanto a sua saúde e proveta idade permitiram.
Saúdo todos os que se dão à Educação e nela estão a corpo inteiro. Aqui fica o que penso e o que (não) vejo no ranking.

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