Opinião: O lixo

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Na sequência de uma opinião anterior falei da importância da regulamentação como meio de construir negócio e das certificações como distribuição de poder para alguns. Não podemos ser fanáticos e entender que todas as normas têm um fim pernicioso, mas devemos manter espírito crítico sobre este poder entregue por instituições governamentais. O Estado bom é aquele que tem meios de regular o poder dos que detêm a força e a decisão. Nem tudo o que se decide é certo, e nem tudo o que se obriga é indiscutível. A liberdade é esse direito de contestar, mas não o direito de andar em contramão, ou de estacionar frente às garagens alheias. A lei baliza comportamentos e por isso é necessária, mas a democracia é o direito dos cidadãos de lutarem contra a lei e usarem mecanismos institucionais não eleitos (procuradoria, tribunal constitucional, provedoria, por exemplo) para se defenderem de exageros do poder.
Com o lixo passa-se o mesmo. A estandardização de procedimentos é uma ideia que nasce em Londres em 1946 com 25 países e vem a dar a estrutura ISO (https://www.iso.org/about-us.html) de onde tem nascido milhares de ideias de consenso para implementar melhorias quer na boa prática das empresas, quer na abordagem de problemas como o lixo e a energia. A gestão ambiental vem na ISO 14.001 e a Eficiência Energética na ISO 50.001. Estas normas pretendem melhorar a nossa relação com o ambiente. O Lixo é uma prioridade dos próximos anos e através destas regulamentações acaba por ser também um negócio. A atribuição do poder de certificar permite ganhar muito dinheiro. O direito de emitir papéis é em si mesmo um negócio que muitos poderes não abdicam de atribuir a amigos. Hoje as embalagens são um negócio que invade até os produtos alimentares mais simples. Comprar verduras por 2 euros e para lhes tocar ter de retirar plásticos e papéis é um contrassenso, mas aparentemente poucos se questionam. A cirurgia laparoscópica produz toneladas de lixo por dia que envolve as mangas de esterilização, os produtos descartáveis, os campos, a roupa, etc.
Normalizar procedimentos é uma ideia que tem uma sustentação excelente. Uma ideia que nos pode trazer equidade de resposta internacional para o mar de plástico que invadiu o mar. O problema é que a melhor revolução é individual e por essa razão os cidadãos que se envolvem numa opção de vida acabam por ser mais importantes que as normas genéricas. A opção por risco zero na medicina, por lixo zero na vida quotidiana são exemplos de bons caminhos. O lixo zero inclui os 5 Rs repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar desta filosofia. Quem recusar o que é supérfluo está a contribuir para melhorar o mundo. Quem recusar fazer produtos lixo – refrigerantes, cigarros, embalagens em legumes e frutas, plásticos para meias, caixas de camisas – ajuda o mercado a estar mais limpo. Comprar garrafas de vidro e evitar as de plástico é uma mais-valia. A ISO sugere e recomenda às empresas estratégias para melhorar a pegada ambiental e os bons empresários tentam cumprir as sugestões. Maus empresários sujam o Tejo, más pessoas causam fogos, deitam lixo da janela do carro, carregam tudo em plásticos.
As pessoas podem fazer a diferença e as instituições também, às vezes, só depende da educação. Fazer mal é ao mesmo preço de construir e resolver com dignidade e qualidade.

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