Opinião: Um discurso do 25 de Abril de 2021

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Em Dezembro de 2019 começou a narrativa pandémica e a voragem autoritária condicionada pela construção das fronteiras do comportamento tendo em conta os riscos de contágio.

Tudo se elaborou com base na ideia de uma pandemia de mortalidade semelhante à peste ou à varíola, ou à poliomielite. Este discurso ainda está ao rubro. As doses de pânico enchem os prime time. Agora não é o Brasil, viajámos para a India.

Esta dimensão apocalítica abriu a discussão entre a liberdade e o risco sanitário público, envolveu o direito, a economia, a medicina, fez crescer a intolerância e a sustentação com base na tecnociência para justificar os posicionamentos.

Todos viraram científicos. Malgrado este sonho, a realidade era um vírus diferente, uma doença surpreendente para alguns e uma certeza: ainda falta tempo para ter certezas e confirmar os ditames.

Azar- a realidade aproxima-se mais do século XV que do XXI. Os seres humanos descobrem que a tecnociência pode muito, mas o muito que pode ainda é pouco para muitas realidades. Julgávamos estar mais além – um desapontamento da realidade contraditória a que o povo assistiu incrédulo.

A ciência é um caminho poderoso que ajudou em diferentes pandemias e encontrou soluções sustentáveis para uma vida de risco menor para a fragilidade imunitária dos homens. Mas o recuo é ainda curto para esta covid 19.

O problema é que vivemos uma realidade desencontrada da filosofia, um tempo onde os discursos políticos têm alicerces curtos e frágeis tentando encontrar justificações para a reivindicação dos humanos.

Queremos tudo numa voragem sem limite. Queremos máxima liberdade, máxima segurança, máximo consumo, máxima exigência, temos pressa nas soluções, não queremos abdicar de confortos ou de encantos, ou de opções – incluindo as de relação com a natureza e com a sexualidade e o animalismo.

Um individualismo Instagram, com voyeurismo e exposição crescente. Quem se expõe tanto não teme vigilâncias de Estado. Um Estado que observa curioso a possibilidade de ser mais presente, mais observador, mais dono dos súbditos. Quem se deixa devorar pelo desejo dos outros não teme a insanidade do ilimitado. Este mundo convive espantado com o das corporações, o dos sindicatos, o dos defensores das causas de outrora.

Esquerda e direita não dizem nada à geração app e à geração cidadão utilizador. “O telehmomem – o homem telemóvel”. Os direitos “sobrepassam” as obrigações. Empenhamento, brio, dedicação, estoicismo vão contra a liberdade e a voracidade dos desejos que acarretam os sofrimentos e as depressões modernas. Há uma absoluta desregulação das ideias. O fim da fé religiosa, o mundo ateu encontrou algumas substituições em tratamentos alternativos, em crenças no natural, em obsessões por abordagens que se oferecem milagrosas. A ciência como religião de esperança salvífica quando a crença nos homens se esfuma.

Sabemos que a natureza preocupa muitos dos novos cidadãos, a sua escolha é pessoal, é pela defesa dos animais, pelo não consumo de proteínas animais, pela obsessão dos ginásios e do corpo. Mas até aqui há um contraditório negativo que é a preguiça, a obesidade, a depressão, a inadaptação à voracidade dos novos tempos. Outro contraste chocante é a enormidade da pobreza face à ínfima percentagem de multimilionários. As mínimas fortunas aumentaram com a pandemia, o mesmo que as maioritárias pobrezas se empobreceram com a doença. Também aqui nos aproximamos do século XV mais do que XXI.

A liberdade matou a fraternidade e impulsionou a denúncia expositiva. As redes sociais julgam, acicatam, insultam, constroem ídolos, devoram vidas. A entrega dos predadores ao dedo acusador, inevitavelmente faz fugir as vítimas para lugares mais recatados. A moita dos simples são as redes sem opinião, cada vez com mais gente.

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