Opinião: A falta de uma visão para Portugal

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Acabei a minha crónica anterior com esta expressão: “A falta de uma liderança sólida e inspiradora está a condenar-nos à pobreza”. É precisamente por aqui, que começo esta crónica. Estas minhas palavras pareciam premonitórias: ficámos esta semana a saber que a economia portuguesa foi a que mais caiu, entre as 12 que já publicaram os seus resultados. O ano passado já tinha sido desastroso e este trimestre veio confirmar a catástrofe. Todavia, este não é um resultado que nos possa surpreender muito: Portugal foi um dos países que menos apoiou a economia e, os apoios concedidos foram, maioritariamente baseados em moratórias, ao passo que o apoio fiscal foi muito pequeno. A Espanha, que seguiu um caminho idêntico saiu igualmente perdedora, com uma perda de riqueza próxima da de Portugal. Os mesmos caminhos só podem levar aos mesmos resultados.
Acredito que o governo português quisesse fazer melhor e apoiar mais a economia, mas, simplesmente, não tinha os recursos. O país gastou excessivamente nos últimos anos, provavelmente onde menos devia, o endividamento permaneceu alto e ficámos mal preparado para fazer face a uma crise desta magnitude. Os níveis de investimento, inclusivamente na saúde, mantiveram-se baixos e não foram executados, em grande medida, apesar da pandemia. Porquê? Falta de liderança, falta de visão e falta de uma estratégia orientada para o crescimento, que nos ajude a fugir dos níveis de pobreza que nos assolam.
Significa isto que nos encontramos num plano inclinado, difícil de reverter. Nos últimos anos fomos ultrapassados por uma série de países que aderiram à EU e vamos continuar a ser ultrapassados pelos restantes, uma vez que não há sinais de inversão desta tendência. Em 2000, o PIB per capita de Portugal chegava aos 80% da média europeia, ao passo que o PIB dos países do Centro e do Leste, pouco passava dos 50%. 20 anos depois, Portugal baixou para 77% ao passo que os restantes subiram rapidamente até aos 75%. Já desperdiçámos mais de 130 mil milhões de fundos, recebidos nos últimos 30 anos, e os fundos da Bazuca, vão ter precisamente o mesmo resultado. De novo a falta de liderança, a falta de visão e de uma estratégia para Portugal, vão conduzir a resultados semelhantes. E, não consultei sequer a minha bola de cristal: basta ver as previsões de crescimento do governo para perceber que, mesmo depois desta queda abrupta, mesmo depois de todo este dinheiro, as taxas de crescimento previstas são mais que pífias. Os fundos da “bazuca” não vão acrescentar mais que uns 0.7% ao crescimento anual do PIB.
Repetindo a minha última crónica: “como se não tivéssemos aprendido nada, ao longo destes últimos 30 anos” e depois de mais esta bazuca, vamos estar a lamentar a nossa falta de sorte que não é mais que uma falta de capacidade de aprendermos com os nossos próprios erros. Estamos a embarcar em mais uma oportunidade perdida. Percebemos facilmente, pela falta de visão e de estratégia do PRR, que os investimentos previstos não vão ser capazes de dar o impulso que falta à economia portuguesa, para sair desta terrível armadilha que nos mantém presos nesta situação que é mais pródiga em produzir pobres que em produzir riqueza. “O fraco rei faz fraca a forte gente…”.

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