Opinião: Xexão

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A democracia tem uma dívida de gratidão para com aqueles homens e mulheres que deram corpo à rutura do campo católico com a ditadura e a guerra colonial. Gente que se irmanou com quem combateu pela liberdade, encarando essa entrega como um serviço ao bem comum. Maria da Conceição Moita – a Xexão – foi um nome maior desse combate.
Fê-lo – ela como outros/as – não por teimosia frívola e individualista, mas em nome de uma vida coerente com o essencial do cristianismo. Na denúncia da guerra, daquela que era aceite ou mesmo incensada nos altares, e na denúncia da opressão de um regime perseguidor e torcionário, Conceição Moita foi sempre uma referência de coragem e de uma frontalidade tão serena como combativa. A paga foi a que invariavelmente têm os/as lutadores/as pelos direitos: estigmatização, ostracismo, aspereza dos poderes instituídos. Os políticos e os eclesiais.
Com leigos/as como o seu irmão Luis, Nuno e Natália Teotónio Pereira, e com padres como Armindo Garcia, António Janela ou Alberto Neto, Conceição Moita marcou, com uma enorme valentia, a presença pública dos/as católicos/as que encontraram no Concílio Vaticano II chão para uma Igreja comprometida com uma libertação com dimensão política e não apenas pessoal. Essa valentia suave foi a sua forma de viver. Dela disse Jorge Wemans: “foi sempre assim: uma voz, uma vida, marcada pela rebelde candura doce da razão e da fé”.
Não foi por acaso que a Xexão foi um dos rostos icónicos do 25 de abril de 1974. Foi-o antes da revolução. Primeiro na viragem de 1968 para 1969, na vigília contra a guerra na Igreja de S. Domingos. E depois, na viragem de 1972 para 1973, no terramoto que a vigília pela paz, na Capela do Rato, provocou no autoritarismo fascista e na Igreja com ele complacente. Foi ela que se levantou no meio da comunidade para a convocar a um jejum pela paz – um gesto simples e bravo, um desafio insuportável para a quietude baça do nacional-catolicismo de então.
Foi, de novo, rosto da luta pela liberdade e pelos direitos em 26 de abril de 1974, sendo a imagem da sua libertação de Caxias – onde estava presa e havia sido torturada desde dezembro – o símbolo do fim da infâmia da prisão por motivos políticos nas masmorras da PIDE.
Essa bravura e essa coerência exemplar da Xexão continuaram em todos os anos da democracia, com uma disponibilidade formidável para a mobilização pela paz, pela justiça e pelo aprofundamento da democracia. Sem liderar, mas sempre a desafiar e a trazer gente para a reflexão-ação diante do que há de errado na sociedade, do que não pode ser, do que nos trama. Fazer de cada perda uma raiz, como cantou José Mário Branco.
Quando era difícil, ela não se escondeu. E quando deixou de ser difícil, ela fez o que era mais difícil. Maria da Conceição Moita – a Xexão – fez da liberdade e da fraternidade um código de vida e enriqueceu-nos a todos/as com isso. O seu desafio continua.

A minha atividade na semana que passou
– Audição do INFARMED sobre autorização de medicamentos inovadores para a fibrose quística
– Apresentação de pareceres sobre projetos de alteração da legislação eleitoral na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias

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