Opinião: Sem donos

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O 25 de abril não tem donos, mas tem autores – disse-se, e bem, nos festejos do Dia da Liberdade. O 25 de abril foi feito para que não houvesse outro dono dos dias senão o povo. Foi isso, mais que tudo, que os seus autores nos deixaram. Outros que agora enchem a boca de 25 de abril e que clamam, para efeitos propagandísticos, que o 25 de abril não tem donos, nunca teriam sido os seus autores. Porque, na verdade, repudiam que seja o povo o único dono dos dias. Temem que seja o povo quem mais ordena.
O 25 de abril não tem donos. Não tem. Por isso o temem os donos disto tudo que, como disse o Zé Mário Branco, “decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás de plantar tomate para o Canadá ou eucaliptos para o Japão”.
O 25 de abril não tem donos, tem autores. E tem processo. O que começou golpe militar transformou-se em revolução. Precisamente quando o povo percebeu que só ele era dono dos dias todos. É isso que queremos dizer quando dizemos “25 de abril sempre”. E muitos dos que agora clamam, com propósitos cínicos, que o 25 de abril não tem donos, fazem-no apenas para travar e destruir aquilo que o povo construiu como dono dos dias do passado e que lhe permite ser dono dos dias do futuro.
Foi como dono dos dias que o povo fez seu um caminho de democracia avançada, com direitos de igualdade porque sem igualdade a liberdade é sufocada. Foi como dono dos dias que o povo fez seu o Serviço Nacional de Saúde porque a vida do pobre e a vida do rico são exatamente iguais e o cuidado com ela não pode depender do que cabe na carteira de cada um. Foi como dono dos dias que o povo fez seu o grito pela liberdade dos povos irmãos das colónias do passado e abriu caminho para a descolonização das nossas mentalidades.
Chegados aqui, dizemo-nos que esta construção ainda vai a menos de meio e que não queremos um 25 de abril pela metade. O que começámos há 47 anos não é menos que um refazer das nossas referências comuns: a igualdade, a emancipação, o respeito do trabalho, o cuidado connosco e com o ambiente, a recusa de todas as discriminações que dão cabo da dignidade. O mandato que recebemos dos autores do 25 de abril é o de fazer dele um programa sempre por cumprir. Sempre o dia seguinte como exigência, sempre um 26 de abril que seja um passo adiante do 25 de abril. Contra quem teima em ser dono das nossas vidas.

A minha atividade na semana passada
– Reunião com a Associação Sindical dos Juízes Portugueses
– Elaboração de um Projeto de Lei sobre a criminalização do enriquecimento injustificado e ocultação de riqueza
– Elaboração de um Projeto de Resolução sobre o resgate para o Estado do SIRESP.

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