Opinião – Panfletarismo e dinâmicas da cidadania

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O uso do panfleto na atividade política pode ser de grande importância. O apoio veemente e persistente a uma causa, a uma doutrina ou a uma campanha, que ele geralmente serve, é imprescindível para que estas possam transcender o pequeno círculo de seguidores e obter uma ressonância acrescida. Desta forma se fomentam as dinâmicas da cidadania, que não existem sem um apelo claro e sonoro à participação. Todavia, se este esforço não for exercido de uma equilibrada, se tiver um formato excessivo, repetitivo ou enfadonho, torna-se praticamente inútil, podendo mesmo produzir um efeito oposto ao pretendido.
Até finais do século XIV, a palavra ‘pamphlet’ era usada no inglês para nomear pequenos textos, bem distintos dos enormes cartapácios onde se registava a palavra manuscrita. Com a invenção de imprensa e a expansão da palavra escrita, passou depois, em diferentes línguas, a designar um libelo, por vezes difamatório ou em tom violento, escrito num estilo muitas vezes mordaz, voltado para objetivos de natureza política. Este tinha agora todas as condições para ser eficaz, dado circular de modo fácil e rápido, não implicar grandes custos e não requerer subtilezas de linguagem, nem grande formação da parte de quem o lia. Podia ainda ser concebido de forma anónima, assim contornando os meios da repressão onde a liberdade de opinião pudesse ser perseguida. Foi, por isso, ideal para fazer o proselitismo de convicções. O inglês Thomas Paine, um dos «pais fundadores» dos Estados Unidos, que também influenciou com as suas ideias os anos decisivos da Revolução Francesa, disseminou grande parte das convicções progressistas justamente através do panfleto. Como, poucos anos antes, o tinham feito figuras decisivas para a afirmação dos ideais subversores do iluminismo, como Voltaire ou Rousseau.
As revoluções que percorreram os séculos XIX e XX, os movimentos sociais que se foram sucedendo, as lutas emancipatórias e de libertação nacional que vieram de seguida, encontraram no panfleto – numerosas vezes disseminado também sob a forma de artigo de jornal – um veículo essencial de propagação.
O mesmo aconteceu sob ditaduras ou regimes associados a formas de pensamento único, com a iniciativa de quem se bateu pela liberdade: sem acesso à tribuna pública, encontrava-se neste meio, clandestinamente distribuído, a solução para expressar pontos de vista, para divulgar exigências, para mobilizar os cidadãos para o protesto, para a reivindicação ou para a informação. O seu papel não foi, pois, o de um instrumento menor, de uma mera alternativa a meios mais sofisticados de comunicação, mas o de um elemento fulcral, capaz de mobilizar para as grandes causas ou os grandes ideais, sem meios ou condições para a eles de outro modo se aceder. O panfleto foi inúmeras vezes uma ferramenta obrigatória da História.
Todavia, o mero panfletarismo perverte este processo. Em democracia, onde existem outras formas de transmissão da mensagem, ele impõe um registo abusivo, pobre na linguagem, que dissemina frases feitas, propostas vulgarizadas ou afirmações demasiado simplificadas. Acaba, desta forma, por se voltar contra os objetivos de quem dele se serve. Hoje, com o eco ampliado da palavra facultada pelos meios digitais, com a exigência argumentativa dos setores mais informados ou educados, o recurso à linguagem estritamente panfletária – encontrada em muitos políticos profissionais e ativistas, como em cronistas dos jornais ou comentaristas da televisão, que apenas discorrem em «panfletês» – torna-se inútil e é um atentado à inteligência do cidadão. Além de ser também tremendamente aborrecido.

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