Opinião – O hábito não faz o monge

Posted by

Entra-nos em casa, todos os dias, um homem trajado para a guerra. Lá no campo de batalha onde se põe, há um inimigo que mata sem se mostrar. Seja como for, o que se regista é que, à alta patente, onde sobra o traje faltam as armas. Ou então falta mandato, já que o combate parece maior do que aquele que se travaria disparando uma seringa com poucos mililitros de vacina.
Já lá vai o tempo – é que o tempo do século XXI corre a alta velocidade… – em que o inimigo principal era o coronavírus, causador de milhões de mortos, destruidor de economias, fechador de fronteiras, criador indireto das penúrias que se vão acrescentando às precariedades de uma sociedade formatada para a assimetria das condições. Para combater a doença que o tal vírus patrocina, a Covid-19, os Estados financiaram a voraz indústria farmacêutica, apressando a investigação e a produção de vacinas. Os tantos recursos investidos possibilitaram que se conseguisse em poucos meses aquilo que poderia ter levado anos a obter: um número elevado de vacinas capazes de debelar os efeitos da Covid-19 nas vidas de toda a gente.
Ficou, contudo, a faltar a estratégia adequada para combater o vírus do lucro, mortífero causador das guerras convencionais e, agora, competente cavador de trincheiras na guerra contra a saúde geral. Querem vacinas? Paguem-nas (outra vez)! – bradaram Pfizeres, AstraZenecas, Modernas, Johnsones e demais mercadores da feira universal da saúde. E a União Europeia pagou. Pagou mas não recebeu as vacinas, encalhadas entre a incapacidade de produzir, a blindagem das patentes e a resposta prioritária a quem pague mais.
Instada a responder às questões suscitadas por tão grande despautério, von der Leyen assobiou para o lado e balbuciou ameaças. Acontece, porém, que a Big Pharma não se assusta facilmente, assim se provando que os fatos de corte fino de Bruxelas têm o mesmo efeito que o fardamento militar de Lisboa. É que, quando toca a marchar, quem toca a caixa são os da Bolsa, e quem marcha por eles são os da Comissão, os das taskforces, os próprios governos comprometidos com o lado abastado da mesa da “concertação social” universal.
Enquanto por cá, de mão estendida, se aguarda a esmola de bazucas financeiras e sanitárias, confina-se a gente e desconfina-se o estado de emergência. Na onda da pandemia afogam-se milhares de micro, pequenas e médias empresas; alastra o desemprego e os salários em atraso; prejudica-se a saúde mental e as aprendizagens; danifica-se o setor da Cultura; prejudica-se a atividade desportiva; fragiliza-se (ainda mais) o associativismo. A crise da Covid-19 levanta-nos, afinal, mais questões do que a da doença propriamente dita.
Entretanto, neste lugar onde nos calha morar – por destino e com gosto –, os responsáveis pelo SNS fecham as urgências nas noites do Hospital Central e adiam soluções para o tratamento das demais patologias e necessidades. Já no lugar da Assembleia da República, ainda esta semana, chumbou-se uma proposta de resolução para a procura de novos fornecedores das vacinas que nos fazem tanta falta. Enquanto o pau vai e vem, fica à mostra a falta de soberania, o rabo-preso-na-decisão neste tempo precisado da mobilização do guarda-fatos todo da nossa sociedade. Porque a farda pela farda, como bem se vê, só serve para identificar a sentinela.

 

Manuel Rocha escreve ao sábado, quinzenalmente

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.