Opinião: A ideia da criação

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As muralhas das cidades caíram. Algumas porque perderam a sua função defensiva em face de inimigos maiores como as pandemias. Outras porque soçobraram com a expansão urbana e populacional. Em certos casos, as muralhas eram unicamente elementos simbólicos que convidavam ao atravessamento interessado – Coimbra é, certamente, um destes casos na Europa.
Talvez devido ao papel central na construção da portugalidade, Coimbra sempre esteve para lá da Almedina. A partir de Santa Cruz densificou uma identidade superior a si no intangível de uma língua comum e na estrutura concreta da primeira capital portuguesa. Simultaneamente centrífuga e centrípeta, construiu uma normalidade criativa que subsiste – pois o que poderão ter em comum, na Coimbra contemporânea, o Centro de Neurociências, a Feedzai e o Círculo de Artes Plásticas senão a primazia da inteligência criativa?
Vivemos uma década exigente. Cientes da emergência climática, cabe-nos reinventar as cidades resilientes centradas na pessoa humana e no equilíbrio ambiental da casa comum. Conhecedores da ciência e da tecnologia, estamos obrigados ao desafio mútuo de inovação na doença, no trabalho, na comunidade. Orgulhosos do património da Humanidade, edificado e imaterial, cumpre-nos ampliar a criação artística e intelectual, desenvolver a civilidade democrática e a participação cívica, sustentar os direitos do Homem maior do que a matéria.
Em 2027, Coimbra pode expressar o modo aberto como Portugal está no mundo. Não chega seguramente o que já fazemos. Precisamos de trocar mais ideias, intensificar redes de parceria nacionais e internacionais e acolher mais pessoas em projectos multicêntricos que forjam o devir comum. Precisamos de mais diversidade e qualidade, maior compromisso e propósito, melhores resultados aplicados e dissemináveis por outras cidades e pólos europeus.
A exigência é tremenda. Responder à década da pandemia com uma transformação sensível e integrada da cidade como laboratório de futuros, na expressão feliz de Pedro Pita, requer uma nova visão e prática na requalificação urbana, na fixação empresarial ou no envelhecimento demográfico, para citar casos óbvios de problemas concretos de Coimbra. A explosão de energia criativa assume, assim, desígnios multivalentes que não se esgotam nas áreas tradicionais das artes e irrompem lá onde se pode projectar maior equidade e coesão social.
Se for um mero programa de festividades, a Capital Europeia da Cultura 2027 poderá ter outras paragens. Mas como programa de atracção de talento, imaginação e criação contemporânea que molda a mudança, só pode ser em Coimbra. Sem muralhas, uma cidade que é uma Região, um País, uma Europa.
Uma Coimbra que recria todos os dias a própria ideia da criação.

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