Investigadores de Coimbra preocupados com intervenção da Câmara na margem do Mondego

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Sete investigadores da Universidade de Coimbra expressaram hoje a sua preocupação com a recente intervenção municipal na margem do rio Mondego, salientando que só será possível recuperar corredores ripícolas em que se “retirou tudo” passado muitos anos.

“Recentemente a margem direita do rio Mondego, na cidade de Coimbra, foi sujeita a uma intervenção”, promovida pela Câmara Muncipal, que “conduziu à remoção integral de uma extensa faixa de vegetação ripícola”, afirmaram investigadores que assinam uma nota conjunta sobre a intervenção enviada à agência Lusa.

“Esta situação preocupante que se repete noutras zonas do país, muitas vezes com o argumento de limpezas de terrenos ou rios e eliminação de plantas invasoras, tem igualmente impactos na saúde pública”, acrescentam.

O comunicado é assinado pelos investigadores Adelino Gonçalves (Centro de Estudos Sociais), Maria João Feio, Miguel Araújo e Verónica Ferreira (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente), Anabela Marisa Azul (Centro de Neurociências e Biologia Celular), Alexandra Aragão (Instituto Jurídico) e Jael Palhas (Centro de Ecologia Funcional).

No documento, os investigadores realçam que “recuperar depois de retirar tudo exige muito tempo”, referindo que “só daqui a muitos anos será possível ter novamente o ecossistema ribeirinho”.

“Este pequeno texto conjunto é uma tentativa de sensibilização e consciencialização das pessoas. Se não forem acautelados conhecimentos, corre-se o risco de ainda aumentar mais a perturbação”, disse à agência Lusa Anabela Marisa Sousa, uma das investigadoras que assina o documento, realçando que a nota é também “um alerta dirigido à Câmara”, para que perceba “que pode contar com a universidade, que tem muitos investigadores disponíveis para uma participação ativa e cívica”.

No comunicado, os investigadores salientam que os corredores ripícolas desempenham “importantes funções ecológicas”, nomeadamente facilitam o refúgio de espécies de animais selvagens, ajudam no ordenamento dos recursos hídricos para proteger pessoas e bens contra fenómenos como inundações e contribuem para mitigar os efeitos das temperaturas extremas sazonais.

De acordo com os próprios, na preservação e manutenção dos corredores ripícolas, não se deve eliminar a vegetação, remover “somente lixo e grandes troncos que impeçam a circulação da água” e remover “de forma cirúrgica e gradual as plantas exóticas e invasoras que se possam ter estabelecido, permitindo e reforçando a recuperação gradual por comunidades ripícolas com espécies autóctones”.

“Nas áreas onde houve cortes recentes de vegetação, é urgente planificar um viveiro em água e em terra que permita recuperar as áreas agora expostas à degradação e erosão, o que incluiu semear e transplantar ervas, arbustos e árvores ripícolas e de acordo com a estratificação e características naturais, e obtidos a partir de propagação de material vegetal da região”, explicaram.

Em março, o presidente do município de Coimbra, Manuel Machado (PS), garantiu que a intervenção na margem direita do rio Mondego na zona da Portela era legal e visava eliminar espécies infestantes e remover resíduos.

Poucos dias depois, o vice-presidente da Câmara de Coimbra, Carlos Cidade, tinha confirmado que tem mantido contactos com a Federação Portuguesa de Golfe (FPG) para a construção de um campo de golfe junto ao rio Mondego.

No entanto, a 12 de abril, Manuel Machado admitiu ser desfavorável à sua localização junto ao rio Mondego, na zona do Rebolim.

O presidente da Câmara de Coimbra disse que tem “enormes dúvidas” quanto a uma possível instalação de um campo de golfe no Rebolim, a qual, na sua opinião, “só é aceitável” baseada em estudos, já que a jusante funcionam captações que abastecem de água Coimbra e vários municípios vizinhos.

“Não conheço o projeto, se é que ele existe”, adiantou.

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