Opinião: Vamos lá a ver se eu percebi

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A cidade de Coimbra não sabe quais são os projetos concorrentes à câmara municipal e, aquilo que deveria ser o processo participado pela comunidade, é algo decidido em Lisboa em diretórios partidários. Certo? Os eleitores de Coimbra aguardam que uns quantos inteligentes e grandes conhecedores de política decidam a sua vida e, logo que sejam conhecidas as doutas decisões tomadas em Lisboa, farão o que se espera deles, ou seja, votarão no símbolo superiormente indicado. Assim, em termos redondos e muito rapidamente, é mais ou menos isto, não é?
Parece que esta forma de atuar é a que deve ser usada em política, e é, do ponto de vista da alta política, a melhor estratégia para gritar vitória no dia das eleições. Desgraçado de quem desalinhar e sequer começar a ter uma qualquer ideia. É imediatamente atirado para o caixote do lixo onde se colocam todos aqueles que pensam um bocadinho pela sua cabeça.
Li nos jornais que um desses partidos muito criativos na forma de escolher candidatos, para depois serem telecomandados de Lisboa e georreferenciados por GPS, não gostou que um militante local, ex-vereador e atual líder da bancada desse partido na Assembleia-Municipal, tivesse mostrado vontade de ser candidato à câmara. Parece que as estruturas locais o apoiaram nessa sua vontade. Ora, isso é algo que um político da província não pode demonstrar: ter iniciativa e apoio. Na verdade, um político da província deve ser muito bem comportado e obediente. Deve ficar sentado no seu gabinete e aguardar instruções da central de telecomando (conhecida como capital ou metrópole). Depois, com a ligeireza que lhe for possível, deve cumprir, sem pensar, todas as indicações recebidas. Se ter iniciativa é mau, pensar é totalmente inaceitável. Bom, parece que esse malogrado político da província, depois de tomar a iniciativa, decidiu ainda montar um programa e, imagine-se, ter ideias. Fizeram logo uma sondagem em casa do Secretário Geral, à qual responderam todos os presentes, incluindo o cão e o gato, e concluíram que o malogrado político da província não dava garantias de ganhar as eleições. Das 300 entrevistas feitas, só o gato respondeu 40 vezes, o referido político não obtinha mais do que uns míseros votos. Parece que só os periquitos votavam nele, pois ainda eram novos e, mesmo sob tortura, não seguiram as indicações de votar como lhe diziam. O político da província bem argumentou que tinha um sonho de transformar Coimbra em algo que fizesse algum sentido, de melhorar a vida dos seus concidadãos e, de alguma forma, colocar a cidade e região no caminho da modernidade. Ainda disse que nasceu em Coimbra, que sempre aqui viveu, estudou, constituiu família, e fazia cá a sua vida profissional, mas de nada valeu. Tinha um enorme defeito: pensava. Isso de ter iniciativa ainda vá lá, agora pensar pela própria cabeça isso é que não. Inegociável. Ainda lhe perguntaram: Aceita tirar o cérebro e instalar no espaço vazio um dispositivo de telecomando? Não. Então não há nada a fazer retire-se que a gente tem outro que aceita.
Passado uns dias, esse mesmo partido anunciou o candidato à Câmara Municipal de Lisboa. No dia do anúncio o candidato estava de máscara e não falou. Fazia sentido, pensaram alguns, pois quem estava ali para pensar não era ele e naquele partido não gostam de malta com iniciativa. Eis que, uns dias depois, o referido candidato dá uma conferência de imprensa no IST, a escola onde estudou, a dizer que amava a sua cidade, aquele era um sítio único e que, no essencial, ser Presidente da Câmara de Lisboa era o “seu projeto de vida”. Ia deixar tudo, todos os cargos e empregos, para se dedicar a ser Presidente da Câmara de Lisboa. A seguir, o candidato com sonhos e ideias apresentou um ambicioso programa de mudança.
Ou seja, em Lisboa, o candidato desse partido tinha um sonho (“I have a dream”) que era ser Presidente (“Mayor”) da Câmara Municipal de Lisboa. O malogrado político da província, por seu lado, não pôde ter sonho nenhum, não pôde sequer dizer ao que vinha e, mal apresentou uma ou duas ideias, foi imediatamente cilindrado pela famosa sondagem feita em casa do Secretário Geral.
Foi isto que aconteceu, não foi? Uma cidade/região que é assim tratada e deixa inventem um “nome“ qualquer para substituir a iniciativa e a capacidade de fazer diferente merece o que lhe está a acontecer, certo?

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