Opinião: No horizonte da cultura

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Os mais antigos lembrar-se-ão de ser a Cultura o tal penedo de Sísifo que o pobre esforçado empurrava encosta acima, desajudado pelas leis da física terreal. O exemplo chegou aos nossos dias, mesmo que mais aliviado o peso e mais respeitado o esforço, já que os braços foram-se multiplicando e foi crescendo a notoriedade do calhau.
Também a Escola se juntou ao esforço, educando curiosidades e prazeres no viver para além das tarefas do dia-a-dia, abrindo espaço à experimentação (mesmo que informal), à descoberta, à vontade de saber mais.
As candidaturas a Capital Europeia da Cultura (em 2027) vão trazer à boca de cena do grande palco das Cidades o desfile das qualidades. Mas mal de quem se ocupe da mera maquilhagem de perfis arrumados para a grande noite.
O espetáculo não é o objetivo central desta candidatura, consciente de que os só-festejos raramente sobrevivem ao fogo de artifício que os encerra. Coimbra da Cultura é, desde há muito, todos os movimentos dos que por aqui se cruzam – num território muito além dos limites administrativos da Cidade – na elaboração de pensamento e na sua concretização.
Nesta tribuna que As Beiras colocam à disposição da candidatura a Capital Europeia da Cultura, muito se falará ainda dos tantos retalhos desta manta comprida, às vezes cosida, outras vezes a precisar de cosedura, ainda assim um mosaico de muitas ações.
O movimento associativo vem tendo, neste mapa de criações, um papel fundamental. Agora como no tal tempo em que o filho de Enarete carregava, sozinho, o pesado calhau. A atividade das numerosas associações, grupos cénicos, estruturas de prática musical e coreográfica, bibliotecas e tantas mais entidades coletivas, constituem uma constelação de existências e são já parte de um desenho de Capital da Cultura como o que está em construção.
Por terem sido criadoras de vontades, nalgum tempo da vida das pessoas, e continuarem a sê-lo. É no envolvimento com os vocabulários que as linguagens se enriquecem, se superam, mesmo que a experimentação não se converta em ofício. É da natureza dos humanos que aquele que experimenta a criação do som será sempre mais capaz de perceber o sublime do que aquele que apenas “ouviu dizer”.
As estruturas associativas são responsáveis, também na nossa região, por permitir aos amantes da Cultura serem mais do que apenas público, mais do que só consumidores, protagonistas afinal de uma atividade humana que cresce em qualidade e encanto na proporção direta do aumento dos seus produtores-fruidores, seja no manejo de um tubo de ensaio ou no declamar de uma frase no texto dramatúrgico.
Alguns hão de deixar-se envolver nos encantos culturais, tanto que farão “daquilo” profissão. Acontece por todo o lado, e erro seria não reconhecer que a Cultura não se mede aos palmos – é toda ela roda viva que faz circular pessoas e ideias. Alguns destes nunca hão de regressar ao lugar de onde saíram, por destino ou por vontade. Outros sim. Ali chegarão com vontade de reencontrar os seus e, podendo ser, acrescentar profissão ao lugar de devoção, uma e outra indispensáveis ao projeto coletivo de criação cultural.
Porque a Cultura que não seja campo aberto pode até ser coisa asseada – mas falta-lhe o horizonte.

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