Opinião: Incerteza

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Uma característica dos discursos recentes tem sido a incerteza sobre as variáveis e a incerteza sobre a progressão. Não falo de quê, porque do mal não se diz o nome – é aquele que não queremos nomear – o Valdemor. Não sabemos se a vacina confere imunidade, se a imunidade dura, se podemos despir os EPI ou retirar as máscaras, se vem uma nova vaga. Não sabemos nada porque é tudo recente e não queremos ter certezas. O medo instalou-se na dúvida, na controvérsia, no mediático sufoco de construir pânico e ilusões trágicas. O prime-time vem sempre de capa e batina preta. Há campeões deste medo, gente que enfrenta o maligno de capacete, viseira, luvas e se refugia o mais que pode em casa. O Valdemor por seu lado não respeita fronteiras, nem isolamentos, nem máscaras e invade mesmo os longínquos, os que se refugiam e escondem. É a sua natureza travessa, indiscreta, espalhafatosa, exuberante. Aquele de quem devemos recusar o nome, viu descontrolarem-se os cidadãos. Vacinámos completamente 300.000 pessoas, mas elas são sobretudo jovens funcionários do estado, mesmo depois de saber que aos jovens saudáveis o maldito não causava doença grave. Mas correram para a inoculação antes dos pais e dos tios e dos avós.

Que triste ver membros do Governo com trinta e quarenta anos, exultando saúde, a vacinarem-se primeiro. Na incerteza, porque não? Porque as vacinas são limitadas e havia grupos de maior risco. Também porque vivemos na época da importância do eu, no êxtase do instagram, da fama como importância sem conteúdo, no tempo da opinião aplanada por baixo. A incerteza é um adubo para a ignorância e um fertilizador do medo. Assim, a Ordem dos Médicos – o Conselho Disciplinar do Sul para ser específico, promoveu vários processos a colegas que questionavam as dúvidas e introduziram discussão. É o mesmo Conselho Disciplinar que deixou prescrever 1700 queixas de doentes contra médicos na última década. É o mesmo Conselho Disciplinar que em 2013 abdicou de ouvir situações famosas contra médicos. O mesmo CD que foi auditado por incompetência da sua função e agora contratou ajuda externa. A perseguição da magia foi feita pela Igreja, a perseguição da ciência foi escrita em nome da fé, agora querem assustar e silenciar a dúvida em nome da incerteza. Quem está preparado não processa, enfrenta, argumenta e discute. É a categoria que falta na Instituição. Este naipe de artistas conseguiu agora ultrapassar a fila de espera e jurar processos contra colegas que alertavam para a veracidade dos testes RT PCR. Agora há evidência do que afirmaram. Os médicos que diziam que uma vacina aprovada por emergência não é a mesma coisa da vacina do sarampo, da rubéola, da tosse convulsa. Por isso temos tantas incertezas a seu respeito. Por isso não devíamos vacinar jovens saudáveis com ela. Mas temos ao fim de meses algumas certezas? Claro que sim. 1- os jovens futebolistas profissionais não ficaram gravemente doentes com o Valdemor, mas em contrapartida alguns morreram de paragem cardíaca súbita. 2- A geração mais prevalente em UCI foi a década de 50 e 60 e sobretudo se deprimida, obesa, hipertensa. Não foram vacinados em primeiro. 3- O pânico é já responsável pelo aumento exponencial de antidepressivos no último ano. 4- A violência doméstica galopou com o confinamento. 5- Houve talvez dois mil portugueses que passaram pelas UCI no último ano, todos com a mesma manifestação clínica e isso é novo e nunca tinha sido visto. A larga maioria está viva e em casa sem sequela nenhuma. As UCI trabalharam muito bem. É importante, para sairmos da crise, para estabilizar o humor, apresentar os números reais, a verdade que podemos medir, a explicação das medidas tomadas, mesmo que se revelem agora menos certas. Repito-me – aquele que recuso o nome – deu palco a muito famoso, deu guarida a muito desequilíbrio, catapultou o pior de muitos para a TV. O palco para a exceção tornou-se viral. Não vivemos a pior das pandemias e não foi o Armagedon. Saramago teria escrito um novo ensaio sobre a cegueira e lá estaria gente da Ordem dos Médicos.

 

Diogo Cabrita escreve ao sábado, semanalmente

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