Hospitais de Coimbra tiveram de “reinventar” os limites do SNS

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Arquivo – Pedro Ramos

O Hospital Geral (Covões) não foi suficiente para acolher todos os doentes da covid-19 nesta terceira vaga, obrigando o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) a abrir enfermarias noutros polos.
“Durante esta pandemia, foram dadas provas consistentes de que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi levado aos seus limites, que tiveram de ser reinventados, e essa capacidade de resiliência só foi possível graças à dedicação dos profissionais, que foram e continuam a ser a chave da qualidade da resposta”, frisou à Lusa o presidente do conselho de administração do CHUC, Carlos Santos.
Um ano depois do registo dos primeiros casos em Portugal, em 2 de março de 2020, este centro hospitalar foi a unidade de saúde em Portugal que mais camas alocou para doentes covid-19, chegando a ter quase 500 doentes internados ao mesmo tempo, de acordo com o diretor clínico, Nuno Deveza.
Inicialmente, o CHUC apenas destinou o Hospital dos Covões para doentes do novo coronavírus, o que foi suficiente na primeira e na segunda vaga, mas, na terceira, em janeiro e início de fevereiro, foi necessário abrir novas enfermarias no polo HUC.
O diretor clínico salienta que “a terceira vaga trouxe uma pressão enorme, obrigando a criar no polo HUC uma área destinada a doença respiratória nos contentores”, referindo que o Hospital dos Covões esteve muito próximo de esgotar a sua capacidade.
“Não esgotou porque tivemos necessidade dia-a-dia ou até no mesmo dia de ir abrindo enfermarias. No total, tivemos abertas 15 enfermarias para doentes estáveis, duas para cuidados intermédios (uma no polo Covões e outra nos HUC) e quatro unidades de cuidados intensivos, no total de 42 camas (15 das quais nos HUC)”, enumerou.

Solidariedade
O médico Nuno Deveza destaca a solidariedade dos profissionais e o seu “sentido de missão” no combate à pandemia, salientando que se tratou de uma experiência única, porque isto era gerido muito em cima, quase à hora, e durante o dia tinha de se mudar o percurso do plano”.
Na última semana de fevereiro, o CHUC registou um “grande alívio”, segundo o responsável, com as idas às urgências e internamentos a “descerem significativamente”, o que levou a administração a iniciar o desmantelamento progressivo das enfermarias e a fazê-las retornar à sua missão original.
“Já estamos a começar a ter condições para retomar, devagar, as cirurgias e as consultas programadas a partir do início de março”, adiantou o diretor clínico, referindo que também a Unidade de Cirurgia de Ambulatório, instalada nos Covões, que esteve transformada em Unidade de Cuidados Intensivos, foi libertada na última semana e está a preparar a retoma para o início de março.

Dias “muito difíceis”
A enfermeira Ana Figueiredo, especialista de reabilitação e que deu apoio à coordenação dos serviços na fase covid-19, revelou que houve dias “muito difíceis”, em que era necessário esperar pelas vagas que iam ficando disponíveis para internar os doentes que estavam à espera.
“Nesta adrenalina dos dias, a saúde mental fica adiada, mas deixa marcas para o futuro. A carga dos cuidados foi grande, a missão não acabou e não há muito tempo para pensar nisso e nas consequências”, disse, à agência Lusa.
Destacando a resiliência dos profissionais, bem como a sua “capacidade de entrega e espírito de missão”, Ana Figueiredo considera que a palavra “superação” é a que melhor define o desafio por que passaram na pandemia.
Obrigados a distanciamento e afastamento dos doentes, “o contrário do papel dos enfermeiros, teve-se de aprender a cuidar através dos olhos”, enfatiza a enfermeira, que esteve na linha da frente.

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