Opinião: Qual o valor da cooperação?

Posted by

A Europa, enquanto projeto político, é uma construção que podemos contemplar com orgulho, mas da qual não podemos desviar o olhar. Atravessamos um período conturbado e a pandemia surge num contexto de ressurgimento de movimento populistas e ultranacionalistas, como a Lega Nord de Salvini ou o Vox de Abascal. As discordâncias no seio europeu sempre existiram e existirão face à pluralidade de visões políticas. Neste contexto, o extraordinário feito das instituições europeias ao longo das últimas décadas foi ter conseguido a paz no seio do nosso continente e fomentado a cooperação.
A liderança de Ursula von der Leyen no processo de aquisição conjunta de vacinas foi exemplar: mostrou que cooperar é muito mais do que um verbo. Cooperar é, na verdade, colaborar com outros para a obtenção de um determinado resultado conjunto e por isso implica ser aberto à diferença, ser tolerante e altruísta.
Estando Portugal na presidência do Conselho da União Europeia durante o primeiro semestre de 2021, é pertinente olhar a questão da cooperação económica. O país enfrenta um desafio de recuperação que passará necessariamente pelo reforço da capacidade de exportação e aumento da produtividade.
Estes dois temas são já “crónicos” na análise às causas da situação portuguesa, mas têm uma especial relevância nesta crise. Face ao abrandamento prolongado de setores como o Turismo, a estratégia de retoma deverá focar a inovação e a transformação digital nos setores de maior valor acrescentado.
O Plano de Recuperação e Resiliência (atualmente em consulta pública) aponta já algumas linhas, mas acredito que a verdadeira transformação da nossa economia será dinamizada pelas indústrias de bens transacionáveis de média/alta intensidade tecnológica, alinhado com o reforço do estímulo público aos investimentos em I&DT.
Só assim se reforçará o capital empreendedor, contribuindo para a geração de mais valor e para a fixação de talento em Portugal. A aposta continuada na educação superior não deve ser abrandada, contudo tem de ser refletida num maior “grau de utilidade” da educação/formação para as empresas. É aqui que a cooperação entre Universidades e demais instituições deve aumentar: as empresas têm de ser chamadas à mesa e ter uma voz ativa.
Nas empresas a cooperação deve ir mais além: os gestores e empresários portugueses têm necessariamente de colaborar para ganhar escala. São ainda raros os casos de joint-ventures de sucesso para conquistar mercados, e passa por aqui uma das chaves do futuro: projetos partilhados; desenvolvimento conjunto de novos produtos para servir clientes mais exigentes; criação de novos modelos de negócio, etc.
No panorama europeu existem oportunidades para as empresas portuguesas aumentarem a sua competitividade: integrando as redes já existentes e reforçando o posicionamento colaborativo.
A inovação é absolutamente essencial neste contexto da transformação digital, e acredito que para alavancar o crescimento teremos de inovar e cooperar ainda mais, tirando partido do melhor que temos: empresas, universidades e politécnicos, centros de investigação, clusters e associações sectoriais.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.