Opinião – Coimbra precisa de ajuda

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É muito claro que as pessoas que vivem em Coimbra se acomodaram, por várias razões, a um estilo de vida pouco dinâmico, sem sonho, sem incerteza, e, portanto, passivo e cada vez mais afastado daquela efervescência que caracteriza as cidades jovens, onde a cultura é de transformação e inovação. Os que não se conformam são muito poucos e são liminarmente afastados. O egoísmo provinciano e medíocre tomou conta de um território que até cultivava uma certa imagem cosmopolita, de abertura e de alguma capacidade de influência. A região vive hoje pendurada nos 730 anos da Universidade e num conjunto de infraestruturas (entretanto degradadas) que foram ficando de um passado cada vez mais longínquo e irrepetível. É evidente que precisamos de ajuda, pois não somos capazes de realizar as centenas de coisas que quisemos ser ao mesmo tempo, não somos capazes de fixar talento, estamos envelhecidos e quezilentos, não atraímos empreendedores, não materializamos as apostas que fizemos, não temos ideias claras e consequentes sobre o futuro, não atraímos indústria diferenciadora, aliás, não atraímos nenhuma indústria, temos imensa dificuldade em inovar, não recompensamos a competência, aliás, afastamo-la e, na generalidade dos casos pretendemos somente sobreviver mais uns anos. Numa imagem, a cidade parece uma instituição decadente gerida por funcionários públicos com 65-66 anos, isto é, que estão a poucos anos da reforma, ou da jubilação, e que nada querem mudar porque aquelas ruínas em que mandam ainda têm de chegar para eles. A seguir, vêm outros, exatamente da mesma idade, que atuam exatamente da mesma forma.
Coimbra precisa urgentemente de ajuda, de um novo paradigma, de arriscar, de querer ser jovem e de não ter medo de se afirmar. Não precisa de um plano estratégico, ou sequer de um plano, mas tão somente da humildade para reconhecer que não é capaz, sozinha, de sair deste ciclo vicioso de degradação e de decadência. Habituada a um estranho “desporto” que consiste em abater quem se distingue, sem cultura de transparência e responsabilização, a região vive de forma medíocre e irresponsável, não sendo capaz de distribuir tarefas e competências por vários daqueles que demonstram algumas capacidades de liderança e, por isso, de mudança. Ao invés, concentra tudo em lógicas de pequeno grupo, geralmente centradas em partidos ou organizações transversais, é incapaz de debate aberto e frontal, não responsabiliza aqueles que abusam dos seus pequenos poderes e demonstra ser incapaz de mudar a sua sina.
Não há em Coimbra um único projeto mobilizador e não se afirmam lideranças políticas que tenham algo a dizer ao país e ao mundo. Os projetos são geralmente pequenos e sem rasgo, apesar de sempre vendidos como grandes reformas, demoram dezenas de anos a ser realizados e quando finalmente e atabalhoadamente se realizam já não têm o menor potencial transformador: veja-se o Metro-Mondego, transformado em BUS, ou confrangedora estação de comboio, ou os inenarráveis acessos rodoviários à cidade e a incapacidade absolutamente vergonhosa de fixar atividade económica e emprego.
O ciclo autárquico que se avizinha é imagem de tudo isto. Os partidos, desertificados de quadros, não conseguem gerar a menor solução diferenciadora. Os atávicos movimentos de cidadãos são a imagem de um território resignado, amorfo e que, na verdade, não quer ser mais nada do que aquilo que é: um território perdido no tempo, sem ânimo e sem amor-próprio. Por exemplo, as candidaturas à câmara não nascem da vontade da cidade e da região, mas são antes decididas em Lisboa, por gente convencida da sua enorme capacidade política, conhecimento da população e dos seus respetivos anseios. Coimbra, outrora guerreira e capital, local escolhido pela conquistador Afonso Henriques para fixar a sua corte, resigna-se, aceita e disciplinadamente obedece, como fazem aqueles que nada sabem, nada querem, nada anseiam e, por isso, nada decidem. Um futuro diferente depende de um golpe de sorte. De algo fora do comum que um dia possa acontecer por mero acaso, só porque sim. Ou então, de um momento de epifania em que esta população finalmente descobrirá no seu ADN a força para se unir em torno da simples ideia de desobedecer e empreender.

 

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