Opinião: De quantas culturas se faz a nossa cultura?

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O mundo contemporâneo é palco de uma oposição irreconciliável entre a homogeneidade de um imaginário global de consumo e competição, imposto pelo mercado, e a heterogeneidade garantida pela pluralidade das culturas que permanecem, emergem e resistem.
Há culturas, não cultura. Não existe uma cultura universal, nem sequer uma cultura nacional pura ou homogénea. De quantas culturas se faz a nossa cultura, quantas existem no Portugal contemporâneo, nas suas diversas regiões e cidades e nas diferentes comunidades e etnias que o habitam e o enriquecem?
Cada cultura define-se não só pela soma de eventos e atividades que nela se realizam, mas sobretudo por um modo de viver, feito de costumes, valores e práticas que, nas suas dimensões materiais e espirituais, é partilhado por uma determinada comunidade ao longo do tempo.
Há culturas que olham sobretudo para o passado (por vezes mais imaginário do que real), que se fixam naquilo que já conhecem ou julgam conhecer e que praticam o monólogo em vez do diálogo. São culturas voltadas sobre si mesmas, que querem ser idênticas a si mesmas, falam essencialmente para dentro de si. São culturas fechadas, que receiam ou recusam o diferente e que sentenciam as suas próprias comunidades à solidão cultural. Uma cultura que resiste à mudança, ergue muros à sua volta, rejeita o outro e se fixa numa identidade pretensamente intemporal, é, em palavras de Daniel Innerarity, uma cultura incestuosa. Tais culturas estão condenadas ao ensimesmamento, à estagnação e à contínua repetição de uma retórica de ideias feitas.
Uma cultura viva é uma realidade dinâmica, de fronteiras porosas, um processo em permanente movimento, que se faz e refaz à semelhança de um organismo vivo, um corpo que cresce e se vai transformando em contacto com outros corpos, outras vidas. A sua identidade é simultaneamente singular e plural, constrói-se e reconstrói-se em contacto com outras culturas, diferentes, exteriores ou estranhas, com as quais dialoga e interage, num plano de igualdade e reciprocidade, avesso a qualquer relação de hegemonia ou dominação. Porque a diferença não se tolera, reconhece-se, respeita-se, acolhe-se e pratica-se. O princípio da alteridade torna-se, por isso, o coração da própria identidade de uma cultura. Ou seja, quanto mais uma cultura for capaz de se colocar no lugar dos outros, mais capaz será de se tornar mais rica, mais humana, mais carregada de futuro.
Por se situar no campo dos direitos e das liberdades fundamentais, a cultura não é um território de consensos. Pelo contrário, o seu traço mais distintivo é o da dúvida esclarecida, do questionamento permanente que se alimenta do conjunto de tensões e contradições que fazem parte da própria natureza de uma cultura viva, e da consciência crítica que permite pensar a(s) cultura(s) como um direito inalienável no exercício pleno daquilo a que chamamos cidadania.
Não esqueçamos as palavras de George Steiner: enquanto as árvores têm raízes, os homens têm pernas e são hóspedes uns dos outros. Se não quisermos que seja destruído o potencial de civilização, teremos de elaborar lealdades mais complexas, mais provisórias.

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