Opinião: A utilidade dos votos

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São muitos anos de novelas. E muitos anos de concursos. Entre a fixação nos pormenores-de-enredo e a ânsia de decidir quem vai ser o vencedor há quem se distraia do essencial da campanha eleitoral e embarque no engodo da campanha publicitária. Alguns desconhecerão, até, que o que está em causa é a eleição do Presidente da República tal como a Constituição o define. Claro que se trata de um cargo unipessoal, pelo que as características de quem se apresenta a sufrágio não são coisa de somenos. Mas já vai sendo comprido o tempo em que eleitores votam em Cicciolinas e Tiriricas, que os há por todos os lados – a forma destacada do conteúdo, a raiva dirigida para a vingança, o pigmento em vez do quadro inteiro.
Faz, por isso, sentido evocar a Constituição, que é o lugar em que estão depositadas as vontades dos eleitores (mesmo que disso possam não estar conscientes). Faz, por isso, sentido retirar os holofotes do campo da rufiagem, em que a canelada é sempre mais eficaz do que o argumento, em que o ódio cego consegue calar – pelo espanto – a mais disponível cordialidade democrática.
O combate que retira chão à ignomínia é mesmo o que lhe retira razão de ser. Havendo trabalho, casa, assistência médica, educação para servir a comunidade, lazer, cultura, ambiente, democracia e o que mais dê felicidade e sentido à existência, deixa de haver palco para o discurso da boçalidade oportunista. Faz, por isso, sentido (repete-se, por valer a pena) evocar a Constituição e as suas pegadas de quase meio século, construção coletiva mesmo que não consensual, mas justa no essencial.
A poucos dias da contagem dos votos, há de aumentar a intensidade dos avisos de aproximação do fim do mundo. Serenemos, porém.
O que está em causa são projetos de exercício do cargo presidencial, numa conjuntura muito marcada por uma epidemia que revelou fraquezas e poderá permitir ajustes de contas. Desde logo os do ódio a uma Constituição que, consagrando direitos, é guia e modelo de construção da tal sociedade mais justa. Não querendo desgostar aqueles a quem me dirijo, temo bem que a barbárie não se combata só nas urnas, desde logo porque o oxigénio dos infames é o desespero dos comuns, carne para canhão de guiões bem urdidos e convenientemente divulgados. O voto de raiva é o da falta de salário; o do empurrado para a margem das cidades; o do trabalhador sem horário, escravo da acumulação de lucro que é a razão de faltar ao crescimento dos seus filhos. O voto de raiva é o do jovem que, perdido nas malhas de sucessivos “períodos experimentais”, já conhece o gosto da desesperança; é o do velho que gastou tantos votos em promessas da tal vida melhor de que já desistiu.
Que ninguém duvide, por isso, da utilidade do seu voto (a cada qual seu destino). O meu quer ter horizonte, deseja prolongar-se além da contagem. Observa o panorama, desconfia das sondagens (e é tanta a razão que lhe assiste), ri-se do argumento de concorrer para segundo. Na cruz que irá desenhar vai afirmar a diversidade – que é conquista democrática -, e lutar por que se cumpra a Constituição. Há votos assim: que consideram que só há derrota quando há desesperança: quando não, o que se faz é caminho.

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