Opinão – Arrogância eurocêntrica

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Começo pela profissão de fé obrigatória nos dias que correm: sou contra a discriminação racial, de género ou qualquer outra que se revele injusta.
Dito isto, creio que estamos a cair em excessos, ajoelhando-nos perante fantasmas e não apenas nos recintos desportivos.
Reconhecendo que o sentimento de fronteira em relação ao “outro” é inerente à condição humana (podíamos ler Ricoeur, Berlin e tantos outros), a esmagadora maioria dos cidadãos europeus sabem conter em molde humanista essa demarcação.
O problema do acto de contrição excessivamente lato é o de permitirmos a gente indesejável exacerbar e cavalgar os medos. A ascensão da extrema-direita não é outra coisa que não filha da incapacidade dos partidos consociativos de massas de terem um discurso equilibrado, autolimitando-se excessivamente ante o receio de ferir susceptibilidades. Limites sim, mas os do bom-senso.
Vem isto a propósito do caso Cavani e da Premier League.
Em meu entender, já raiava o disparate a punição a Bernardo Silva por ter comparado uma fotografia de infância do seu companheiro e amigo Mendy ao boneco dos chocolates Conguito, já que o próprio testemunhou que não se sentia minimamente ofendido. No entanto, cedo na questão do bom-gosto da brincadeira…
O caso de Cavani é que já não consigo entender, por me parecer que estamos a colonizar novamente, agora pela via do complexo de culpa.
Cavani terá respondido “gracias, negrito” a um comentário de um amigo na sua conta de Instagram. Imediatamente a Football Association veio reputar o comentário de abusivo, qual guardiã da moral universal.
Acto continuo, as Academias de Letras de Argentina e Uruguai chamaram a atenção para o que devia ser óbvio: a necessidade de contextualizar as expressões e de não ver o mundo com lentes eurocêntricas. Nestes países, como na Venezuela, a expressão “mi negro” ou “negrito”, mormente entre latinos, é sinónimo de carinho e amizade.
Como em tudo, nem oito nem oitenta.

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