Opinião: Instrução pública

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Três Professores do meu departamento, que em momentos diferentes foram importantes para a minha carreira, deixaram a carreira docente. Dei comigo a pensar sobre algo que é inevitável, apesar de pessoalmente ainda longínquo, mas que, de alguma forma, me incomoda. É um momento de homenagens, de balanço e de início de uma nova etapa, longe da pressão académica e científica diária e, se calhar por isso, até bem mais produtiva do ponto de vista de resultados científicos.

Uma dessas pessoas é a Professora Teresa Vieira, especialista em materiais, que há algumas semanas atingiu o limite de idade e se jubilou. Para além da enorme qualidade científica e técnica, a Teresa manteve sempre um contacto industrial muito significativo, pois percebia bem que os resultados da ciência tinham de ser aplicados na indústria e isso tinha de ter consequências na forma como se trabalhava. A noção de serviço à comunidade é muito significativa no perfil da Teresa Vieira, o que, na minha opinião a distingue fortemente e reforça a sua grande capacidade de gerar novo conhecimento (é uma referência nacional e internacional na Engenharia de Materiais). Atinge o limite de idade com vários alunos de doutoramento, um em que partilhamos a orientação, várias dezenas de projetos e uma atividade intensa, como se a idade não fosse nada com ela. E não é, de facto. A Sociedade Portuguesa de Materiais atribuiu-lhe esta semana o Prémio Manuela Oliveira, instituído em 2019 para promover a relevância da igualdade de género nas atividades de investigação, desenvolvimento, inovação, transferência de tecnologia e ensino, na área de Materiais em Portugal, e reconhecer o papel crucial que as mulheres desempenham nas áreas da Ciência e Tecnologia de Materiais.

Outro colega que deixou funções pelas mesmas razões, foi o conhecido Professor Domingos Xavier Viegas. É um homem da aerodinâmica, mas o país conhece-o pela intensa atividade na área dos incêndios florestais, à qual dedicou uma grande parte da sua vida. O seu objetivo era compreender os fogos florestais, perceber a sua essência, a dinâmica de um incêndio, as variáveis que o caracterizam, de forma a poder atuar em várias frentes: no treino dos bombeiros, melhorando a eficiência da sua ação e minimizando a possibilidade de acidentes mortais, o combate aos fogos, idealizando estratégias para que não atinjam grandes dimensões, mas também a sua prevenção, isto é, minimizando as ignições para aquelas que são naturais. Reuniu uma grande equipa, foi capaz de juntar equipamentos, colaborações internacionais, capacidade de desenvolver e testar novas soluções. Hoje, com 70 anos, é o mais importante cientista Português na área dos incêndios florestais, sendo ainda, sem margem para nenhuma dúvida, uma referência internacional na área. Deixa a atividade regular na Universidade de Coimbra, mas tenho a certeza que se manterá ativo na investigação dos incêndios florestais.

Por fim, menciono ainda o Professor António Morão Dias. É um pouco mais novo do que os outros e fez uma carreira algo diferente. Depois de um trajeto de enorme sucesso na área das tensões residuais, sendo percursor de várias técnicas de análise, com enorme interesse para todas as áreas em que os materiais, nomeadamente metálicos, são colocados em serviço, como por exemplo, em motores, engrenagens e todo os tipo de peças, tendo criado várias instalações laboratoriais e de serviço à comunidade, o Morão Dias iniciou um outro percurso. Esteve na Universidade Católica, foi durante 6 anos Diretor Geral do Ensino Superior e, durante cerca de 4 anos, Reitor do Campus de Lille da ENSAM (Instituto Tecnológico de Arts et Métiers). A sua carreira científica, iniciada em França, atingiu grande projeção, o que lhe permitiu realizar com grande sucesso as atividades de planeamento estratégico e gestão da inovação que essenciais para os cargos na Direção Nacional do Ensino Superior e para uma escola Francesa de grande dimensão e projeção.

Os três casos, ainda por cima de três amigos, fizeram-me pensar um pouco nessa fase da vida que inevitavelmente chegará, mas essencialmente na forma como desperdiçamos talentos e experiência quando atingem o limite de idade. A Universidade e o país têm de encontrar formas de aproveitar o conhecimento que acumularam e as experiências que viveram. Não tem de lhes agradecer, porque fizeram aquilo de que gostavam e, no essencial, divertiram-se, não tem de lhes criar cargos eméritos, porque isso não é, de facto, necessário, mas tem de os reconhecer como exemplos. Se eu fosse PR atribuía-lhes a Ordem da Instrução Pública.

 

Norberto Pires escreve ao sábado, semanalmente

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