Opinião: A cultura em Parlamento

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Paredes meias com os devoradores de realityshows e os devotos de influencers há quem se mobilize para experimentar um texto de Gil Vicente, para juntar vozes num coral de Lopes-Graça ou Pedro de Cristo, para fixar imagens de luz e enquadramento, para inventar realidades que são tinta e tela branca. Há quem o faça por devoção e quem lhe encontre razões de escolha de ofício – uns e outros indispensáveis à construção do exercício de mundo a que chamamos Cultura.
O assunto é espinhoso, mas já adquiriu o estatuto de respeitabilidade. Pelo menos em palavras ninguém contesta o valor da Cultura na vida das sociedades. Há depois quem, mandante, lhe dê mais ou menos importância, sendo que a diversidade das governações da Cultura está muito relacionada com o entendimento das vidas, assim se trate de criadores de “galinhas dos ovos de ouro” ou gente atenta à caminhada da Civilização (uns preocupados com os pagantes, os outros com os participantes).
Já houve um tempo em que Cultura rimava com “carolice”, recurso essencial que, por cá, deu (e continua a dar) Ateneus e AACês, clubes recreativos e cineclubes, companhias de teatro e grupos corais. O país em que Cultura já foi quase só militância (há apenas 50 anos) transformou-se, entretanto, numa terra em que Cultura é também trabalho. E nestes tempos de preparar candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027, vai-se procurando tornar mais nítido o mapa das existências numa Coimbra que calhou ser, através dos tempos, lugar de embalo do muito que por cá vive e do tanto que um dia se fez à estrada.
Serve a política para forjar realidades, ou de pouco serviria. E o que há poucos anos parecia dispensável veleidade, confinada (como hoje é uso dizer-se) na proposta política que dificilmente rende votos, viria a transformar-se em necessidade concreta quando se percebeu que a urbe não é uma folha de papel em que se desenham intenções, por muito boas que sejam. É antes um território desigual, em vontades e perspetivas, que precisa de entendimento, planificação conjunta e proposta concertada.
Há muito quem ande enganado no mundo das lideranças, aquele em que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Só que os “líderes” são como as barcas no mar alteroso: tão depressa surfam a onda como se afogam no abismo. Ora, quando a gente é muita – e comum o chão em que caminha -, o mais seguro é mesmo usar os instrumentos da democracia. Por isso é que o Conselho Municipal de Cultura é uma bela novidade neste tempo em que o medo substitui a análise, em que a sobrevivência parece querer tomar o lugar da vida. Nos dias em que a agressão renovada – ao posto de trabalho, ao direito conquistado – quer ser o rosto e a lei de um “novo normal”, inventado para além da (real) ameaça sanitária e embalado no equívoco das “perceções”, a solução é mesmo vivermos juntos (ainda que distantes um par de metros), e juntos combinarmos o dia que há de vir.
No acerto de contas com pandemias e assomos fascizantes, a Cultura é (também) matéria-prima da esperança. E cais – em que um Tartufo nunca cabe noutra barca que não seja a do Inferno.

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