Opinião: Não será a hora de uma palavra de esperança?

Posted by


Começo esta opinião por um relato na primeira pessoa: quis o destino que a notícia sobre as últimas medidas restritivas para mitigar a pandemia me colhesse na presença de um pequeno/médio empresário que as recebeu com tremores, stress total e um desmaio. Passado o primeiro impacto, não me pude impedir de pensar sobre o que se estaria a passar no resto do país, com todas as pessoas que estão a ser duramente afetadas pela pandemia e por uma sucessão de medidas erráticas, pouco sistemáticas, nem sempre coerentes e muitas vezes desprovidas de uma perspetiva de eficácia no combate à epidemia. Não é fácil estar no papel de quem governa e tem que tomar decisões, mas não é igualmente fácil estar no papel de quem vê os seus pequenos negócios e as pessoas que deles dependem, esfumarem-se sem perspetivas de um regresso à normalidade. É legítimo deixar toda esta gente neste limbo dramático que vai traduzir-se em consequências brutais para a economia, o emprego, a saúde e o bem-estar?
Na verdade, os impactos da pandemia estão a atingir duramente todos os países e os nossos principais parceiros estão também eles, em cenário de confinamento mais ou menos duro. Assim, também a maior parte das economias europeias e mundiais apresentam um comportamento recessivo e mais fechado às nossas exportações. Em paralelo, o pequeno comércio, restauração e hotelaria verão milhares de empresas e empregos desaparecer. Não haverá oportunidades de emprego para jovens recém-licenciados e não poderemos contar com o motor do turismo para relançar a economia. Os pequenos empresários, em geral, estão a viver uma desmoralização ímpar que impedirá muitos deles de regressarem aos seus negócios. E, curiosamente, as grandes empresas parecem continuar a fluir e, as muito grandes empresas parecem conhecer uma prosperidade inaudita…
Na verdade, impunha-se que neste tempo que nos permitiu aprender muito sobre a doença e sobre o comportamento da economia em cenário de pandemia, o governo tivesse fortalecido e reforçado a resiliência do SNS; que tivesse melhorado a planificação para fazer face aos diversos cenários, prevendo o papel dos diversos agentes para cada fase e momento da pandemia; que trouxesse um discurso unificado e coerente que fornecesse um direcionamento claro a todos nós, população, empresas, sector social e serviços públicos. Na verdade, não é isso que está a acontecer. E, na presença de potenciais instrumentos para nos ajudar a lidar com a crise, como a dita “bazuca europeia”, em vez de uma visão e de um caminho para a saída da crise, vemos os agentes do costume a marcarem posição para um potencial “assalto” aos fundos e, pasme-se, o Ministério Público já em ação. Em paralelo, o país fica estupefacto com a disponibilidade de fundos para “auxiliar” a TAP e os bancos, mantendo as torneiras fechadas para quem verdadeiramente necessita destes fundos: o SNS, as empresas e as famílias. Na verdade, não é verdadeiramente disto que estamos necessitados. Não há saúde sem economia do mesmo modo que não há economia sem saúde.
Depois de termos aplaudido o prémio Nobel para os economistas da teoria comportamental, continuamos esquecidos dos ”efeitos dos fatores psicológicos, sociais, cognitivos, emocionais e dos fatores econômicos nas decisões de indivíduos e instituições”. Não será tempo de cuidarmos a sério de todos os que estão a sofrer com a pandemia e se sentem incapazes de lidar com toda a adversidade e com toda esta incerteza? Não será tempo de deixar a linguagem do medo e do desespero? Não é tempo de nos recentrarmos e devolver ao país uma palavra de esperança?

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.