Opinião: O inexorável “toma!”

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A ideia de que os media tanto podem “vender” sabonetes como Presidentes da República, proferida em 1997 por Emídio Rangel, à data diretor da SIC, deixou escandalizada a sociedade. Habitualmente, a sociedade finge escandalizar-se com a verdade. Anos depois, o comentador Marcelo Rebelo de Sousa era eleito Presidente sem colocar um único outdoor. Desfez-se então a dúvida de que a televisão podia, efetivamente, promover, ou “vender”, Presidentes.
O poder da comunicação é grande. Não carece de fita métrica, balança ou termómetro. É um amplificador de mensagens que chega massivamente a um vastíssimo número de pessoas. Mede-se pela eficácia. Teve ou não o efeito pretendido? Esta é a pergunta que se faz na linha de chegada de cada ação mediática.
Provavelmente, os criadores das campanhas britânica e norte-americana de angariação de jovens para a Primeira Guerra Mundial, teriam recebido o prémio de mérito pela sua eficácia. Foi-lhes pedido que persuadissem os compatriotas. Apelaram ao nacionalismo, inculcando nos jovens a ideia de que não seriam bons cidadãos caso não se alistassem. Foi nessa altura que surgiram aqueles icónicos posters em que, de olhar ferino e ameaçador, usando todo o peso na ponta do dedo, um carismático sujeito, ungido pelo simbolismo nacional e envergando as cores da sua bandeira, apontava o caminho do sacrifício.
I Want You for U.S. Army”, dizia a ilustração do Tio Sam, pintada por James Montgomery Flagg por encomenda das forças armadas dos Estados Unidos. Foram impressos mais de quatro milhões de cartazes. A ilustração foi inspirada num poster de Alfred Leete, concebido em 1914, que representava o secretário de estado britânico Lord Kitchener envergando o chapéu de “marshall”.
Naquela altura, estas eram as armas publicitárias mais eficazes. Mais de cem anos volvidos, a mesma conceção de propaganda de guerra é usada em Portugal. Um outdoor colocado em Lisboa por um partido político exibe o busto da nossa República, com o mesmo dedo em riste, exortando os cidadãos a usar máscara. Tenho ouvido fortes críticas. Não me parece que haja motivo para tal. No final, na tal linha de chegada, perguntaremos se foi ou não eficaz a campanha. E se atingiu o objetivo.
Tal como na Primeira Guerra Mundial, que dizimou 20 milhões de pessoas, até ao momento foram atingidos pelo covid-19 quase 50 milhões de pessoas, sendo que cerca de 1,2 milhões não puderam ser salvas. Isto apesar de cem anos de avanços da ciência. É certo de que estamos em guerra. É uma guerra diferente. E sim, precisamos de todos. E de todos os meios que visem restabelecer a paz.
Mas custa-me que outras guerras deflagrem no mundo sem que nos consigamos mobilizar para as travar. A fome, a pobreza, a falta de acesso à educação, a falta de incentivos à cultura, e tantas-tantas outras. Para essas não nos aparece o busto da República, mas sim o Zé Povinho com o seu inexorável “toma!”.

DR

Pode ler a opinião de Bruno Paixão na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

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