Opinião: Covid-19 – Não mascare a sua saúde*

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A situação excepcional da pandemia Covid 19 veio alterar de forma brusca e generalizada os cuidados de saúde em Portugal. O número de portugueses que viu alterado o seu acesso a cuidados de saúde durante a pandemia é muito elevado e foram sobretudo três os factores que condicionaram tal realidade: O confinamento da população, o desvio dos recursos humanos e técnicos do SNS para a resposta à necessidades da pandemia Covid 19 e a instalação de um clima de medo generalizado na população.

De acordo com a Entidade Reguladora da Saúde (ERS), no período entre Março e Junho , verificou-se uma queda no número de consultas médicas hospitalares realizadas presencialmente no SNS entre 16% a 31% comparativamente aos mesmos meses do ano anterior. Ao nível da actividade cirúrgica o impacto foi ainda maior, com uma redução do volume de cirurgias programadas entre 57% e 78%, e nem as cirurgias consideradas urgentes escaparam ao impacto da pandemia, tendo o mês de Abril sido o menos favorável com uma redução de 23% no número de cirurgias urgentes realizadas.

Mas a realidade pode ser ainda mais preocupante… Um estudo realizado pela GFK Metris, promovido pela Ordem dos Médicos e pela Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, 57% dos portugueses considera que a pandemia dificultou o acesso aos cuidados de saúde, com a população mais idosa ( 69%) e os doentes crónicos ( 70%) a manifestar mais dificuldade. Segundo este estudo, ao longo dos primeiros sete meses deste ano verificou-se uma redução de 7 milhões de contactos presenciais médicos e de enfermagem nos cuidados de saúde primários, menos dois milhões de contactos presenciais nos hospitais (consultas, cirurgias, urgências e internamentos), menos 17 milhões de actos complementares de diagnóstico e terapêutica (exames, análises e tratamentos de medicina física e reabilitação).

O medo continua também a ser um factor castrador no acesso das populações aos cuidados de saúde. Apesar da maioria da população manifestar sentir segurança no acesso aos cuidados de saúde, 210 mil portugueses referiram ter estado doentes na pandemia e não ter recorrido a assistência médica. Este estudo refere que 35% dos portugueses afirma que só recorreria a cuidados se saúde se a situação fosse muito grave .

A Covid 19 abalou todo o mundo, apanhou todos os sistemas de saúde desprevenidos e obrigou os países, os seus governos e populações a fazer ajustamentos e adaptações.

A violência com que chegou, colocou num plano secundário outras doenças cuja morbilidade e mortalidade são superiores à Covid 19. Doenças oncológicas, doenças cardiovasculares, diabetes e muitas outras doenças agudas e crónicas não podem ser esquecidas, nem relegadas para segundo plano.

Exige-se às entidades de Saúde que estabeleçam planos que permitam uma assistência simultânea e em circuitos distintos dos doentes Covid e não Covid com uma resposta eficaz no tempo e na qualidade dos serviços prestados.

Apela-se à população mais frágil, particularmente aos idosos e doentes crónicos que confiem nos serviços de saúde do seu país, não valorizando o receio da infecção por Covid 19 acima das consequências da não procura de cuidados de saúde.

A viabilidade de resposta das Unidades de Saúde estará dependente do comportamento de todos. Nenhum sistema de saúde terá capacidade de resposta se o comportamento individual de cada um não for exemplar.

*Lema do Movimento “Saúde em Dia” – Ordem dos Médicos e APAH

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