Opinião: O intelectual público, agora

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Em 1993, numa conferência proferida em Reith, na Áustria, Edward Said definiu a condição do intelectual público como a de alguém que se esforça por produzir e divulgar um ponto de vista, partilhando-o e estimulando expectativas junto de um público ao qual se dirige, defrontando os entraves que sempre lhe são colocados. O intelectual público, homem ou mulher, é assim alguém que pensa por si próprio, sempre com o objetivo prioritário de dinamizar a reflexão coletiva e de questionar a ordem do mundo, embora não necessariamente de a fazer ruir. Por isso lhe são postos os entraves de que fala Said: se é um pensador, um comunicador e muitas vezes um dissidente, exercendo a sua atividade, de uma forma necessariamente pública e aberta, incomoda sempre aqueles que impõem a sua autoridade apoiados na ignorância e na manipulação do cidadão comum.
Há, neste tempo que atravessamos, quem afirme que os intelectuais morreram, ou, no mínimo que estão moribundos. Eles foram em larga medida substituído pelos comunicadores, que falam a partir dos grandes meios de comunicação associados aos grupos económicos, e que têm vindo a substituir o questionamento da ordem estabelecida justamente pelo contrário, que é a sua defesa ou naturalização. O comunicador apoia-se, já não na reflexão crítica, numa observação das contradições do mundo, como até aos anos oitenta o procurava fazer o intelectual público, mas na recorrente expressão de «soundbites»: frases sonoras, ideias repetidas, geralmente abreviadas ou simplificadas, que tendem a exprimir perceções ou «verdades» mostradas como absolutas e inquestionáveis. Este processo levou a uma transferência de popularidade, sendo o prestígio do «grande pensador» – o escritor, o filósofo, o político, o jornalista, o advogado, o artista, cujo trabalho reconhecido lhe conferia autoridade – substituído pelo da «superestrela dos média».
Este ganhou lugar cativo no ecrã ou em colunas regulares de jornal, com espaços de comentário repercutidos no fluxo de informação proporcionado pelo digital e pelas redes sociais, por vezes até como protagonista de matérias ligeiras em «revistas de sociedade». Não falamos já do intelectual que incomoda, que põe em causa, que adianta possibilidades, mas de um figurante que procura promover justamente o oposto disso, mostrando a realidade como uma sucessão de episódios situados fora da perspetiva histórica, perante os quais, como em forma de slogan exprimia a conservadora Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica entre 1979 e 1990, «there is no alternative» («não existe alternativa»). Sob esta perspetiva, a realidade passa essencialmente por processos de gestão daquilo que existe, sem grande perturbação da ordem supostamente imutável do mundo; não passa pela esperança em dinâmicas de transformação, se necessário for, do próprio regime político e social. O comunicador transforma-se, deste modo, em guardião dos poderes estabelecidos, funcionando como um dissuasor de contradições, de conflitos e de expectativas que possam perturbar quem manda.
Todavia, a tão apregoada «morte do intelectual» é – como terá expressado Mark Twain, em 1897, ao repórter do «New York Journal» que o questionava sobre o estado de saúde e a iminência do seu desaparecimento do mundo dos vivos – «manifestamente exagerada». Twain viveria ainda mais sete anos, mas a vida do intelectual como instrumento crucial do conhecimento, da reflexão, da energia crítica e da liberdade, resistirá por certo muito mais. Naturalmente, o mundo de hoje não é o de Émile Zola, que em 1903 protagonizou o nascimento formal do intelectual público com o artigo «J’Accuse», saído no diário parisiense «Aurore», no qual usou a sua voz e o seu prestígio, e arriscou a sua segurança, para defender o injustiçado capitão Dreyfus contra a arbitrariedade do Estado. Agora, perante a nova ditadura dos «soundbites» e dos meios de comunicação, importa ainda mais a intervenção de quem aceite comprometer-se para, com inventividade, ousadia e independência, pela escrita ou pela voz, ajudar os outros a pensar e a agir.

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