Opinião: Adormecimento coletivo

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É claríssima a ameaça que vivemos. Resulta da menor preparação e consciência coletiva para os efeitos de longo prazo de tudo o que fazemos, nomeadamente de uma ideia de sociedade, de futuro e de necessidade de deixar o mundo um pouco melhor do que aquilo que encontramos. Um político que admiro muito, já falecido e que não vou identificar, dizia isto de uma maneira simples: “vamos continuar a lutar pela liberdade concreta, pela igualdade e pela dignidade de vida de todos os cidadãos. E havemos de construir o [país] mundo que desejamos”. Essa forma de estar, digamos idealista, de ter a cabeça permanentemente levantada e os olhos no horizonte, é a exceção. É tudo de muito curto prazo, associado a ganhos pessoais e de pequeno grupo, pelo que não se conseguem vislumbrar objetivos estruturais ou ganhos civilizacionais.
Os sinais de alheamento são públicos e notórios.
Ao nível local, numa cidade e região que seguem há várias dezenas de anos uma trajetória de empobrecimento, os sinais são preocupantes, de falta de propósito, transparência e democracia. A um poder atávico, pouco competente e afastado da realidade, junta-se a ausência de propostas verdadeiramente diferenciadoras, pela qualidade e capacidade de agregar, que permitam perspetivar a inversão do caminho seguido. Até os “independentes”, fortemente centrados em si próprios e em projetos pessoais, são incapazes de perceber que quando deserta 50% da comissão política, isso significa, de imediato, clarificação. Não é só uma questão de transparência, mas sim, no essencial, de propósito. Quem se candidata a gerir o interesse público tem de saber que a forma como decorrem as decisões políticas, a transparência com que são conhecidas e a democraticidade interna, são aspetos críticos e não pormenores de menor importância.
O OE2021 foi negociado à esquerda, tendo o Governo cedido ao PCP e ao BE para o poder aprovar. No entanto, o BE anunciou que votaria contra e o PCP adiou o voto contra para a especialidade, abstendo-se, para já, na generalidade. Ou seja, o OE contém várias linhas de ação que não deveriam lá estar, pois só foram introduzidas para agradar a BE e PCP e facilitar a sua aprovação. Mais um engano, portanto. Esta na forma de uma lei.
O Governo, ao arrepio da democracia, decidiu limitar os direitos fundamentais dos Portugueses por simples Resolução do Conselho de Ministros. Seguindo essa lógica, será de esperar que, caso seja necessário, o Governo tente aprovar o OE através de uma Resolução do Conselho de Ministros. Assim, evitaria a “chatice” da negociação com os outros partidos e teria ainda a vantagem de obter uma aprovação por unanimidade. Se já inventaram “eleições” para as CCDR, em que os autarcas, nomeados os únicos eleitores de uma região, votaram nas escolhas pessoais de António Costa e Rui Rio, por que não avocar funções da AR para o Conselho de Ministros?
No caso BES, por exemplo, tirando partido de todo o tipo de artimanhas processuais, pediu-se agora que o processo fosse todo traduzido para francês e o Ricardo Salgado pediu 14 meses ( 420 dias) para ler todo o processo. Lá para 2035, alguém se lembrará de pedir a tradução para Mandarim e os bisnetos dos acusados, pois esses já não serão vivos, pedirão 20 anos para perceberem se a tradução foi bem feita e detetarem as imprecisões, etc. Nem vou mencionar Tancos, ou Processo Marquês, porque, na verdade, já é tudo demasiado mau.
Na TAP, ficou claro que serão os portugueses a pagar o buraco permanente, pois, foi anunciado que vai precisar de cerca de 100 milhões/mês em 2021. Não há dinheiro para educação, nem para saúde, mas não falta para nada disto. O Novo Banco, por exemplo, vai continuar a viver do dinheiro dos contribuintes.
Olhar para tudo isto e verificar o adormecimento dos cidadãos é assustador. Eu percebo. A pressão do dia-a-dia, da necessidade de garantir o básico para a família, faz com que contemporizemos. No entanto, estamos a chegar a um ponto de não-retorno e isso, para ser revertido, vai de novo custar muito a todos nós. Dinheiro também.

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