Opinião: Sonhando o passado

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Somo todos os dias confrontados com saudosistas do passado, mas só porque já esqueceram a fome e a miséria amarga que sofreram e de que fugiram. Muitos nem olham para o mundo em que vivem para não terem que esfregar os olhos e verem a miséria e a fome que os rodeia. Muitos são estudantes que viveram paredes meias com ela e que agora cantam:

“Coimbra, tu eras d’antes
O que não voltes a ser;
Quando fomos estudantes
Eras Coimbra, a valer! ( 1 )

É natural que passados anos só recordem os bons momentos em que sonhavam a abundância material e os louros profissionais a que os seus diplomas davam direito.
Agora o que acontece a muitos diplomados é a degradação das suas vidas, em que as carreiras profissionais com vencimentos sempre a subir já não acontecem.
Aconteceu com os professores em que os últimos ministros nem sequer prometeram progressões, só as dificultaram de uma forma insana, degradando a profissão docente de tal modo que no final muitos fugiram dela ou nem sequer foram admitidos, fazendo agora falta. Outras profissões mantiveram-se sempre degradadas e por isso vemos por todo o lado gente com qualificação superior com salários miseráveis.
Tudo acontece em nome da necessidade de salvaguardar os privilégios de uns poucos e de fazer a degradação do valor da generalidade das profissões, incluindo as que exigem formação superior e nos seus vários graus.
Não admira que em tempo de COVID 19, alguns governantes queiram obrigar profissionais de nível superior a trabalhar sem condições e se estes não o fizerem logo lhes chamam cobardes. Assistimos assim à desqualificação dos profissionais que as universidades e politécnicos preparam para trabalhar em condições adequadas, mas que são obrigadas pelos patrões que lhes calham a fazê-lo sem elas, degradando-os tanto na produtividade que podiam e devem ter como na segurança no trabalho que humanamente deviam ter.
Associada a esta situação assistimos ao alijar de responsabilidades por parte do Estado que, incapaz de inverter a marcha imparável da má gestão das grandes empresas e daquelas que intervencionou com resgastes que não controla, procura pedir aos remediados o esforço assistencial que deste modo não pode nunca dar. Está assim o Estado impedido, como há uns anos fazia, de dar bolsas a alunos carenciados.
Justificarão esta evolução com a COVID 19, mas todos, recordando bem, saberão que esta degradação das nossas vidas profissionais já vem de muito longe.
E que os sonhos de muitos jovens foram assim desfeitos.
Sabemos apenas que muitas mentiras foram ditas para que tal acontecesse.

( 1 ) António Alexandre de Matos – Coimbra, A Linda (Cantata em 6 Cantinhos), Manuscrito encontrado no Museu de Vila Flor e publicado em Coimbra, Tu eras dantes, Lisboa, 1940, p. 40.

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