Opinião – O cúmulo da generosidade

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Há poucas semanas vaticinei pela primeira vez o fim do reinado de António Costa e lembrei que, aquando da demissão de João Soares da pasta da Cultura, o Primeiro-ministro garantira aos portugueses que advertira os seus ministros que “enquanto membros do Governo, nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do Governo”.
Agora, parcas semanas passadas, vejo-me obrigada a relembrar aquela sentença do chefe de governo, já que este, fazendo-se esquecido dos seus próprios avisos, integrou a Comissão de Honra da candidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Sport Lisboa e Benfica.
Há quem diga que o líder socialista quis assim enviar um recado à sua camarada Ana Gomes (que, tomando a seu cargo a defesa pública do hacker Rui Pinto, não tem poupado críticas ao presidente do clube da Luz) e há quem entenda que se tratou apenas de um excesso de clubismo. No caso, pouco me interessam as suas razões, pois, num ou noutro caso, tratou-se de mais um erro grosseiro que reforça a minha convicção de que Costa está a dar o berro.
A verdade é que as suspeitas que recaem sobre Luís Filipe Vieira são muitas, graves e conhecidas de todos, e, por isso, é deveras estranho que o mesmo Primeiro-ministro que se afastou (e bem!) de José Sócrates (ex-chefe de um governo que o actual Primeiro-ministro integrara), tenha agora ignorado tanto e tão negro fumo vindo daquele flanco da 2.ª circular. Há cerca de um ano, no programa ‘Circulatura do Quadrado’, questionado sobre as acusações que recaem sobre o ex-Primeiro-ministro socialista, Costa afirmou-se implacável: “Não tolero, em caso algum, qualquer forma de corrupção” e declarou-se incapaz de “conviver com quem tenha praticado actos de corrupção”. Pois bem, não se compreende tão estreito convívio com o presidente do clube da Luz…Não é essa, porém, a principal razão que deveria ter impedido António Costa de apoiar aquela candidatura.
A questão mais perturbadora prende-se – julgo – com o facto de o Primeiro-ministro (tal como qualquer outro político com funções executivas, como é agora o caso dos presidentes da Câmara de Lisboa e do Seixal e como foi o caso do autarca do Porto aquando da candidatura de Pinto da Costa à presidência do clube das Antas) não poder ignorar os conflitos de interesses que entre aquele apoio e as suas funções podem decorrer.
Ao invés, Costa limitou-se a afirmar que o dito apoio não tem qualquer ligação às funções políticas que exerce, ignorando que, quer ele, quer aqueles Presidentes de Câmara, não têm nestas matérias a liberdade das pessoas comuns.
A razão que restringe a sua liberdade é óbvia e incontornável – todos eles desempenham funções públicas – e, por isso, não pode ser ignorada em momento nenhum… nem à mesa do café, como disse (e bem!) o próprio António Costa.
Oscar Wilde definiu o cúmulo da generosidade reportando-se à atitude de “certas criaturas [que] têm a mania de dar bons conselhos, precisando tanto deles para si”.
Talvez tenha sido esse o erro de Costa, não respeitar os seus próprios avisos, exigindo, a si mesmo, compostura que faça jus ao cargo que ocupa e rejeitando esta vergonhosa promiscuidade entre política, futebol e negócios.
Se quisermos recuar um pouco, lembramo-nos da dívida de 31 milhões de euros de Luís Filipe Vieira à Caixa Geral de Depósitos e de mais umas quantas histórias de crédito malparado que envolvem o dito senhor… Mas, do que ninguém se terá ainda esquecido é de que a Promovalor (empresa do presidente dos encarnados) ficou devedora ao Novo Banco de várias centenas de milhares de euros que foram suportados por todos nós, em consequência de uma decisão do próprio António Costa.
Ora, tal facto deveria bastar para que o Primeiro-ministro percebesse que sobre ele impendia um inderrogável dever de reserva que o obrigava a afastar-se daquela candidatura. Não sentirá o Primeiro-ministro nenhum engulho com tal promiscuidade? Os portugueses não lhe merecem, pelo menos, um pedido de desculpas?
António Costa tem-se revelado um político esperto, hábil e calculista, mas em muito pouco tempo este é o segundo erro que faz lembrar a falta de argúcia militar que na Roma Antiga valeu a Marco Licinius Crasso a derrota frente aos Partos.
António Costa devia deixar-se de generosidades e guardar os seus conselhos para si mesmo. Bem precisa deles!

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