Opinião: Museu dos Judeus Turcos

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Não foi fácil encontrar o local. Apesar dos mapas e das orientações, o museu passava completamente despercebido no meio das pequenas ruas, de intenso comércio, localizadas na antiga e secular zona europeia da cidade de Istambul.
Estávamos na zona da Torre de Gálata, no cimo de uma elevada colina, de onde se avistavam os barcos lá em baixo, no Bósforo. Neste local, as populações estariam, supostamente, mais protegidas de algum ataque inimigo, oriundo do mar. O tempo que o beligerante demoraria a subir a colina, ainda seria considerável e muita da energia atacante seria despendida naquela muito íngreme subida. A zona comercial e a sinagoga, pareciam estar bem protegidas.
Finalmente, entre lojas de candeeiros e cafés com pequenas esplanadas, lá apareceu uma pequena e discreta placa indicando a suposta entrada do museu. Nada faria prever que ali se encontrava um museu judaico e muito menos uma sinagoga.
A porta abriu-se com alguma dificuldade, pois era uma porta metálica, muito robusta e grossa, como se fosse a porta de um cofre. Lá dentro, uma pequena divisão, sem janelas, completamente fechada e da qual só se saía por outra porta idêntica mas que estava fechada.
Depois da porta exterior ficar automaticamente trancada, surge um indivíduo, um segurança, que nos revistou, incluindo todos os nossos pertences. A seguir, foi necessário passar num pórtico eletrónico, semelhante aos que existem nos aeroportos e que normalmente apitam.
Foi necessário entregar ali o nosso documento de identificação. Após todos estes procedimentos, o homem da segurança ausentou-se. Alguns minutos depois a segunda porta abriu-se automaticamente e foi então possível entrar no Museu dos Judeus Turcos.
Descendo umas escadas estreitas chegámos a uma pequena loja e à bilheteira. Dali, passando algumas portas, entrámos numa espantosa, bonita e cuidada sinagoga, sem janelas, completamente escondida num imprevisível local. No exterior, nada indicava a presença daquele belo e espaçoso local de culto.
Continuando por estreitos corredores, escadas e portas, chegámos ao museu, pequeno, moderno, apelativo e muito bem organizado.
Não se via nem se ouvia ninguém, o que facilitou o trabalho de ler e de estudar todas as informações sobre a história dos judeus turcos. Um interessante museu refletindo histórias de fugas e de perseguições.
Há 528 anos, mais concretamente, em 1492, vindos do longínquo ocidente, de barco, pelo mar Mediterrâneo, começavam a chegar ao Império Otomano, os primeiros judeus sefarditas, ainda hoje considerados a elite do povo judeu.
Fugiam das perseguições, dos assassínios, da intolerância e da ignorância. Fugiam da morte, que os perseguia, ciclicamente, por toda a Europa, mas estes judeus, na sua maioria, cultos e ricos, muitos com formação superior e grandes conhecimentos científicos, económicos, geográficos, médicos, fugiam de uma península distante a que chamavam Sefarad, daí o nome de judeus sefarditas e, Sefarad, era o nome que atribuíam à Península Ibérica. Nos séculos XV e XVI, muitos destes judeus turcos vieram de Portugal e de Espanha, perseguidos pela Igreja Católica e pelo poder régio. Foi um dos maiores erros alguma vez cometidos pelo poder político em Portugal. Expulsos de Espanha a partir de 1492 e de Portugal a partir de 1497.
Nos painéis informativos do museu era possível encontrar diversos nomes portugueses, ainda hoje mantidos pelos atuais judeus turcos, assim como ao longo dos últimos cinco séculos, orgulhosos da sua ascendência portuguesa.
De súbito surge um pequeno grupo de turistas brasileiros. Estabelecida a interação e o diálogo com o grupo e com o guia judeu turco mas que falava português, ficámos a saber que era sefardita, de origem portuguesa e estava à espera de obter o passaporte português, que aliás, o irmão acabara de receber.
À saída, em conversa com a senhora da loja do museu, percebemos que também ela era sefardita e que já tinha, desde há uns meses, um passaporte português.
Nos últimos cinco anos e mercê da nova legislação aprovada pela Assembleia da República, cerca de 17 000 estrangeiros, judeus sefarditas, descendentes de portugueses expulsos há 528 anos, recuperaram a nacionalidade portuguesa. Alguns já regressaram.
Portugal a reconciliar-se com a sua História.

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