Opinião – Iniciativas Que Contam…. Ultimatum

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O termo latino ultimatum é tradicionalmente usado para designar um conjunto de condições que uma nação apresenta a outra, e de cuja aceitação ou recusa desencadeia a paz ou a guerra. Assente no confronto bélico e, em certa medida, num pressuposto de supremacia de quem o impõe, a palavra “ultimato”, em português, é ainda usada, por extensão, na ameaça de resoluções “finais” e “irrevogáveis” como forma de impor determinados comportamentos ou exigências.
Na memória nacional, o “Ultimatum britânico de 1890” é, sem dúvida, uma iniciativa que conta. No final do séc. XIX, quando Portugal, com base no princípio do direito histórico, reclama os territórios africanos entre Angola e Moçambique (o célebre Mapa-Cor-de-Rosa), o Reino Unido lança um ultimato sob a ameaça de quebra de relações entre as duas nações. Portugal renuncia de imediato, gerando reações e movimentos de contestação que precipitaram a queda da Monarquia e a emergência do movimento republicano.
O Ultimatum traumatizou a consciência nacional, incentivou nacionalismos, fazendo-nos ver, como refere Eduardo Lourenço no “Labirinto da Saudade”, que somos um povo mais pequeno do que o que na realidade nos sentíamos.
Naquela altura, como hoje, “um corredor” realça, perante os nossos olhos de espanto, as fragilidades da aliança mais antiga da Europa. Naquela altura, o desejo britânico de um corredor ferroviário entre a África do Sul e o Cairo sobrepunha-se a qualquer mapa, ainda que cor-de-rosa, da Sociedade de Geografia de Lisboa. Hoje as métricas da pandemia de um Reino Unido fora da Europa sobrepõem-se à esperança messiânica que colocamos em corredores turísticos aéreos entre os dois países.
Existem ainda outros Ultimatums que os portugueses deveriam conhecer. Refiro-me àqueles que, sob a forma de Manifesto, integraram a (revista) Portugal Futurista, cujo primeiro e único número, em 1917, foi apreendido pela polícia pouco depois de colocado à venda. Refiro-me ao Ultimatum de Álvaro de Campos e ao Ultimatum Futurista de Almada Negreiros. Escritos num mundo ao avesso, no final da I Grande Guerra e da Revolução Russa, numa Europa à deriva, a atualidade destes manifestos cem anos depois é inquietante.
Do Ultimatum britânico, nasceu um hino de nacionalismo e resistência aos britânicos, A Portuguesa, de Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça, adotado como Hino Nacional a partir de 1910. Do Ultimatum de Álvaro de Campos, nasceu uma récita por Maria Bethânia, a cantora que com a sua voz inconfundível repete: “Deixem-me respirar! Abram todas as janelas!”
Ultimatos são para nós portugueses iniciativas traumáticas. E, no entanto, recorrentemente usadas (como aconteceu esta semana) por alguns governantes que, ao sentir-se ameaçados, procuram em último recurso intimidar órgãos de governo, condicionar votações, criar circos mediáticos, escondendo as suas fragilidades. Esses ultimatos fomentam populismos e descredibilizam as regras da democracia. Um país que aceita, em silêncio, os ultimatos de um governo que ora ameaça demitir-se se um diploma for aprovado pelo parlamento contra o seu desejo, ora ameaça os parceiros que convida para negociar o orçamento de estado com uma crise política, caso não aceitem o que propõe, é um país com deficit de democracia.
É um país que não aprendeu com o “Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX” de Almada Negreiros, publicado em 1917, que termina da seguinte forma: “O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades.”
Mandemos estes Ultimatums, tal como diz Álvaro de Campos, “pra casa descascar batatas simbólicas!”. Será seguramente uma iniciativa que conta.

(para partilha de informações ou comentários pf escreva para: iniciativasquecontam@gmail.com)

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