Opinião: “Estrutura de organização e acompanhamento da pandemia por COVID 19”

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Há 25 marinheiros num barco que ruma ao Sul. O timoneiro é cego e o homem do leme é pastor, nunca tinha visto o mar. O barco é batido em mar alto, é coisa rija, tem mais de história que os marinheiros escolhidos. Há gente a lavar o barco que tem mais de trabalho ali que a história do HUC completa. Recordo a Alzira Cardoso, a Teresa, a Glória Lavrador. Quando cheguei a este barco em 1993 já lá estavam alguns que ainda lá navegam, o António Firmo, o António Ramires, o Fortuna. O barco só não resistiu ao Valdemor Correia de Campos, começando a abrir buracos, a ver os traidores entrarem nas traineiras, os sépticos a transferir-se, os medrosos a encolherem-se.

Ontem a nomeação da última viagem leva 25 marinheiros de que só reconheço trabalho no velho barco à Enfermeira Elisa Hipólito. Estão nomeados um timoneiro que nos quer afundar desde o início, um fazedor de soluções repentistas que nos agride sem ouvir, um personagem de Corto Maltese que dava pelo nome de silêncio.
O barco negreiro levou os covid da primeira vaga sem pestanejar, agregou quem foi contratado para entrar, tremeu da aventura, chorou de medo – porque o desconhecido apavorava, segregava, feria. Tivemos jovens médicos exaustos, trabalhando sem vacilar, afastando-me do perigo.
– Tenha cuidado dr – é que já sou de risco!
– Eu faço os testes, dr. Eu vou lá!

Gente que amo para a vida e que vi como não fugiam, não vergavam. Estiveram nisto enfermeiros incontornáveis e gente enorme de solidariedade e competência. Não tivemos infecções, não tivemos mortos em combate. Não posso dizer todos, mas não quero falhar o Gonçalves, o Trepa, o Rua, o Machado, o Hélder, os enfermeiros: o Pedro Seco, a Susete, a Isabel Santos, a Joana, a Manuela Costa, também auxiliares tolhidos de medo que não meteram baixa, não deram “de vila diogo”, os que foram mudados de lugar de um dia para o outro, também inexcedíveis os internos de medicina dos Covões e do HUC.

Dos especialistas, membros da Comissão, quando o vírus ocupava os ares, ensombrava as noites – não estava nenhum – Da lista de 25 que agora estruturam o velho barco na sua última missão – para a segunda vaga que nem sabemos se existirá – não consta nenhum dos que antes levou a carcaça. Minto: o Jacinto tomou decisões e andou por aí, concorde-se ou não.
Não há nenhum marinheiro da descoberta, não há nenhum cavaleiro do apocalipse, não está nenhuma da experiência ganha no combate. Excluídos o responsável de Medicina do H. Geral – o Pedro Ribeiro; também excluída a Maria João Faria que mandaram para cá durante a crise e nasceu médica aqui.

Por esta forma de ver os outros é que chegámos ao chão, estamos tombados num barco despojado de bens, usado como um farrapo que às vezes limpa a cozinha, outras o salão de baile. Fechadas que foram as enfermarias de Urologia, de Nefro, de Pneumo, de Cardiologia, de Ortopedia, de Trauma, de Gastro, etc agora inauguram-se salas de colheitas, salas de covid.
Espetada a faca no orgulho o touro move os cornos e tenta acertar o passo ao homem da capa, esventra o cavalo.

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