Opinião: Desculpem-me

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É uma da manhã. Não é a primeira vez que me acontece ter de entregar um texto e faltar-me o tema, a inspiração, um início, um balanço. Não é a primeira vez. É como se tivesse tido uma branca (mas sem os sete anões). Percorro a esteira de livros olhando para os títulos na lombada. Nenhum me diz nada. Eles só dizem o que querem e quando querem. Tiro pela “enésima” vez um dos meus favoritos, de capa castanha. Chama-se “Vem comigo”. É um livro poderoso e provocante, um tratado contra o apartheid, escrito pela sul-africana Nadine Gordimer, laureada com o Prémio Nobel da Literatura em 1991. Ela chegou a dizer algo mais ou menos assim: “a solidão da escrita é muito assustadora, anda perto da loucura, desaparecemos por um dia e perdemos o contacto”.
Nadine tem razão. Oxalá lhe tivesse acontecido o mesmo que a mim. Poderia partilhar a consciência pesada de estar a roubar linhas a este jornal pelo facto de usar espaço para dizer tão pouco, ou até coisa nenhuma. Ela saberia decifrar melhor estes preliminares da escrita, em que acomodamos os dedos ao teclado e os sentimos casmurros. O cérebro é como uma espora que incita os dedos a pensar. Mas eles continuam entorpecidos, telhudos, obstinados.
Sei bem que estou a escrever e, ao mesmo tempo, a dizer que não consigo escrever. Mas não ignoro que o ato de escrever anda, muitas vezes, longe da compreensão razoável e afastado da lucidez. Marguerite Duras (não sei se é com “t” ou com “tt” – e na Internet aparece das duas maneiras). Desculpem-me, mas perdi-me. Vou reler o que escrevi. Ah! Marguerite Duras, que li compulsivamente na faculdade, ensombrou os cânones ao dizer que antes de escrever não sabemos nada acerca do que vamos escrever. A escrita é o desconhecido. É algo que temos ao nosso lado, paralelamente a nós, com vontade própria, com cólera. Esta frase sei-a de cor: “Se soubéssemos alguma coisa do que vamos escrever, antes de o fazer, antes de escrever, nunca escreveríamos. Não valeria a pena.” Disse-o Marguerite. Ou Margueritte. Desculpem-me.
O ato de escrever é, porventura, uma das mais solitárias tarefas que uma pessoa pode empreender. O medo de se cair na solidão, a dúvida quanto ao abismo que lá se pode encontrar e a incerteza de se conseguir sair de lá intacto e sem rasuras, assusta muito. Esse desconhecido inexorável e permanente, como um pêndulo que transporta inquietações, é, ao mesmo tempo, um esconderijo e um altifalante.
Quem nunca escreveu pode não conseguir acreditar que a escrita seja um universo isolado, um ermo secreto e solitário. Podemos cantar a duas vozes, jogar ténis a pares, mas nunca escrever a dois. Não. Escrever assim, nunca! Entramos dentro dessa casa figurada e é no seu interior que ficamos sós. As pessoas que vivem junto a nós observam que nos fechamos nesse casulo de hibernação. Gera-se o silêncio à nossa volta. Surgem as interpelações. E quando a escrita flui, ela é inviolável. É uma forma de gritar sem ruído. Como se cada letra fosse um malmequer plantado num renque anarquicamente florido, à espera de sentido.
Cheguei aqui. Conto os caracteres. Nós escrevemos ao “caracter, incluindo espaços”. É assim que se diz. São cerca de três mil. Penso que consegui completar a mancha de texto para entregar. Lamento que não tenha podido ser útil. Que tenha dito tão pouco. Lamento muito. Desculpem-me.

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