Opinião: “Assim, não vamos lá!”

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Somos um país original e cheio de ideias. O nosso problema nunca foi não ter planos estratégicos ou umas boas e variadas análises SWOT para o País. O nosso problema foi sempre a falta de capacidade de execução, falta de definição de prioridades, falta de capacidade de monitorizar e, finalmente, falta de coragem para fazer escolhas. O nosso nacional porreirismo e a vontade de agradar a todos, deixam-nos sempre a meio caminho da mudança e afastam-nos do desenvolvimento, de forma reiterada.

Dois exemplos recentes definem bem esta forma de nos levar a lado nenhum. O exemplo mais recente é que o Governo resolveu mandatar um cidadão para redigir um plano estratégico de desenvolvimento nacional que sirva de suporte às linhas de ação a financiar pelo pacote de apoio europeu que Portugal receberá para mitigar as consequências da Covid 19.

O Estado Português tem vários gabinetes de planeamento, existem planos em todas as gavetas de várias organizações empresariais, também nalguns ministérios, mas o Governo eleito precisou de fazer este número político que resultou num documento que tenta falar de tudo e não esquecer nada. Como “dizem” que foi “probono”, o prejuízo é pequeno, mas a ideia de colocar uma pessoa a liderar um trabalho deste tipo, vinda de um governo socialista que , supostamente, quer o Estado mais forte e em todo o lado, mas que afinal acredita pouco ou nada nas suas estruturas, é quase risível.

No final, tudo baralhado, o que vai acontecer é um conjunto de regulamentos parecidos com os que existiam que vão tentar albergar o que normalmente não seria incluído, distribuindo dinheiro por todos os níveis de gestão pública que existem, mais alguns que irão criar propositadamente.

No final, tirando o Estado que já gastou imenso à conta do dinheiro que há-de vir, e sabe bem que o investimento hipotecado durante os últimos anos, tem aqui a sua oportunidade de ser realizado, como por exemplo a ferrovia nacional interurbana, os restantes atores da sociedade serão confrontados , provavelmente, com mais do mesmo. No resto, desejamos que o dinheiro chegue à economia, às indústrias que podem criar emprego, às regiões que ficaram sempre para trás dada a macrocefalia lisboeta e à atração de dois ou três grandes investimentos industriais estrangeiros que repliquem o que a Autoeuropa conseguiu fazer por Portugal, em três décadas.
O segundo exemplo da matriz pouco reformista enraizada neste Governo foi uma entrevista dada pela Profª Ana Abrunhosa, agora Ministra, onde esclarece que deslocalizar serviços do Estado para fora de Lisboa é impossível porque as pessoas que lá trabalham não querem.
A solução, refere a Ministra, terá de passar por criar novos serviços , de modo a que ninguém fique zangado. É óbvio que não querem mudar , nem nunca quererão. Quem governa e tem de tomar decisões, sem pensar muito na sua carreira política , depois de ouvir todos, deve decidir , promovendo a mudança, aguentando os protestos particulares e agindo. Não sei se não têm autonomia, não sei se não sabem o que fazer ou sequer se têm uma estratégia de deslocalização de serviços, mas se existe alguma ideia, não podem dizer que não fazem porque os próprios colaboradores do Estado não querem e que isso provoca muito incómodo político e notícias “más” nos Media – esta parte é da minha autoria.

Quando li, não resisti recordar os tempos em que governando seriamente, legislámos para terminar com milhares de órgãos políticos de freguesia e centenas de empresas municipais. Governar para agradar a todos não é governar, porque governar é fazer escolhas, executar e ter a humildade de reconhecer que há sempre novas mudanças que poderão corrigir o que eventualmente não resultou como se pretendia.

É por estas , seja pelo plano estratégico “dos milagres que nunca hão-de vir” ou por uma governação do estilo “nem lá vou, nem deixo ir”, que ficaremos , cada vez mais, para trás quando comparamos com os nossos congéneres europeus que, como Portugal, têm de criar mais riqueza, precisam de um Estado mais moderno e eficaz, pretendem melhorar os seus indicadores de educação e ser mais competitivos. Tudo isto, num mundo que não se compadece com tanto “porreirismo” e caminhos tão sinuosos.

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