Opinião: A Revolução Liberal e a Ciência

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Para além das questões políticas suscitados pelo 24 de Agosto de 1820, houve o questionamento da situação científica do país e por isso um deputado, Francisco Soares Franco, desde logo afirmou para que não restassem dúvidas que:
“Eu mesmo conheço algumas e dentro do Congresso está meu mestre o ilustre Deputado o Sr. Tomé Rodrigues Sobral, que muito melhor poderá indicá-las. A Comissão faz uma ideia mui triste dos conhecimentos químicos em Portugal, mas se esta ideia fosse, desgraçadamente verdadeira, o que eu nego. 1

De facto, a Revolução Liberal colocou em marcha reformas educativas, que melhoraram o panorama científico e de formação profissional universitário. Foi o que com Idalina Brito e António Alves estudei e publiquei em Tomé Rodrigues Sobral ( 1759-1829 ), Lema de Origem, Carviçais, 2019.

Na verdade, agora que se iniciam comemorações dos eventos políticos associados à Revolução Liberal, não devem ser esquecidos os aspetos científicos e tecnológicos associados, bem como os obstáculos que as sucessivas guerras civis criaram e levaram ao abandono das esperanças que emergiam então.

No caso de Tomé Rodrigues Sobral, verificamos que nos últimos sete anos da sua vida, já doente, foi impedido de contribuir pela guerra civil para a Reforma Necessária do Ensino Científico, embora a sua capacidade científica e pedagógica fosse amplamente conhecida na Academia Coimbrã e não só.

Muitos farão a história destes anos sob a perspetiva política, sem em nenhum caso tomar em linha de conta que não houve a tranquilidade necessária para treinar novos cientistas, nem trabalhar na construção de uma indústria química como há muito desejava. De facto, muitas vezes Tomé Rodrigues Sobral almejou transformar o seu laboratório químico num protótipo de uma fábrica ou num centro de “certificação da qualidade das águas termais”, que permitisse criar uma rede termal, algo que só após a sua morte vai ser concretizada em parte em Lisboa por José Romão Rodrigues Nilo, que era doutor em Medicina pela Universidade de Paris. Falar-se-á por isso muito pouco das esperanças que o desbloqueio da sociedade portuguesa pela Revolução Liberal trouxe, falando talvez um pouco mais dos que emigraram para o Brasil e aí lançaram as bases de muitas escolas superiores na Baía e no Rio de Janeiro.

Esperemos por isso que as comemorações da Revolução Liberal não se limitem aos episódios dramáticos das Guerras Civis, algo que a sua derrota em 1823 trouxe a Portugal.

Espera-se que a análise das consequências das Guerras Civis traga uma explicação política rigorosa das razões do nosso atraso educativo e científico e nos dê pistas sobre o porquê da sua continuidade no nosso tempo.

1 Diário das Cortes Gerais e Extraordinárias da Corte Portuguesa, 26 de Agosto de 1822, p. 239, coluna 1.

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