Opinião: Três A

Artur Aguarda escreveu um manual de sala de espera. Especializado e mais tarde doutorado em hall de estações, grandes espaços abertos, comunicação a mais de trinta metros.

Artur Aguarda respondeu a quem lhe pedia trabalhos:

– Tem de esperar! Aguarde que tudo se há-de fazer!

Conheci depois o Artur Aguenta.

– Tens de corrigir estas discrepâncias – disse-lhe um dia de semana.

– Aguenta! Respondeu-me convicto.

Aguentei seis anos e os assuntos esqueceram. Acalmava tudo com a distância. Aguentar era como uma gaveta de esquecimentos. Deitava para o porta-luvas e só o abria perto da venda do automóvel. Artur Aguarda era juiz e foi um mestre em prescrições, adiamentos, longos percursos e intermináveis insucessos. Cansava-se depressa. Esgotava-se antes de terminar a leitura.

Foi depois deste segundo Artur que conheci o Adia. Tínhamos por costume deixar para amanhã o que se podia fazer hoje. Artur Adia ainda não casou. Ainda não fez o curso. Ainda não abriu um negócio. Ontem estava a pedir esmola no semáforo. Viu-me e sorriu. Sempre afável, sempre à espera de melhores dias.

– Melhores dias virão!

– Aguenta amigo! – Disse eu – surpreso com o que dizia.

– Continuo no aguardo! Sabes bem que não me inquieto nem exalto.

Artur Aguarda é director de uma empresa e pedi-lhe emprego para o Adia. Ficaram os dois assim mesmo. Aguarda demora algum tempo e Adia nunca vai protestar. Falei há dias com o Aguenta a pedir que me tire das ruas o Adia.

– Aguenta! Tudo se vai resolver.

– Mas vi-o a pedir nos semáforos, Artur!

– Não te preocupes que ele aguenta. Havemos de arranjar.

– Mas escreveste o pedido?

– Calma, aguenta que hoje ao fim do dia irá.

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