Opinião – Por que razão António Costa Silva é uma boa ideia

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O PM explicou recentemente numa entrevista como selecionou António Costa Silva para desenhar a visão estratégica do país: “Eu estava a ouvir a entrevista e pensei: cá está uma boa pessoa a quem se pode pedir o desenho de uma visão estratégica.”
Qual é o problema desta declaração de António Costa? Numa primeira análise, parece uma afirmação ligeira e descuidada que não faz o menor sentido para quem exerce a função de Primeiro-ministro. De facto, um PM pode e deve pedir ajuda técnica, rodear-se de especialistas e, consequentemente, tomar decisões mais fundamentadas. E até pode identificar esses colaboradores através de programas que vê na TV. O que não pode é pedir a terceiros que lhe desenhem uma visão estratégica. Essa é a sua maior responsabilidade e a razão da sua existência. Pretensamente, foi a sua visão estratégica para o país que lhe permitiu ganhar o poder e lhe dá legitimidade para o exercer.
No entanto, o plano de Costa Silva é, de facto, um excelente documento de análise do país e de definição de uma estratégia global. Levanta as questões corretas, define 10 linhas de ação, apesar de falhar na definição objetivos claros, calendarizados e não identificar os mecanismos de financiamento. É um documento sério, escrito por um homem muito inteligente a olhar para o futuro, sem ficar preso no passado e nas teias do pequeno poder e na espuma dos dias.
Portugal não avança porque não olha para a frente, não planeia e não deseja sair de uma certa mediocridade. Acomodou-se, não é exigente e quem decide pensa primeiro em si, nos seus pequenos grupos e só é capaz de uma lógica de sobrevivência e de manutenção de certos privilégios. No entanto, os homens e mulheres que fazem alterações e provocam saltos civilizacionais, são idealistas, desprendidos, vivem como pensam, sem pensar como viverão, e não protegem “os amigos”. Há sempre algo superior e coletivo que guia a sua ação. Não são amados por muito tempo, rapidamente passam a ser considerados loucos e perigosos pelos pequenos grupos que os promoveram numa primeira fase.
Nessa perspetiva, António Costa Silva é uma excelente iniciativa de António Costa. Pode através dele ser visionário e arriscar transformações que o seu grupo nunca lhe permitiria. Costa e Silva pode sair da caixa, apontar orientações estratégicas radicais, fazer mudanças e introduzir novos interlocutores. Será ouvido porque é inteligente, experiente e não precisa disto para nada. Tentarão colar-se a ele, porque têm medo de quem é livre e sabe o que diz, e com isso permitir que muitas transformações avancem. No final, pode ser muito positivo, pois quem anda a olhar para o chão e a medir a distância para os adversários internos, nunca aprecia o horizonte e não antecipa o efeito devastador (porque irreversível e fantástico) que pode ter a ação de um grupo de pessoas que caminha com os olhos e a mente numa ideia realista de futuro.
Um bom sinal foi a reação dos partidos e de certos meios da “inteligência” nacional. Declararam logo que não falavam com Costa Silva, mas só com ministros. Recusavam-se a participar no desafio de olhar para o futuro, pois estão mergulhados na lenga-lenga do presente. Ele que fizesse lá o plano, que eles, quando tivessem tempo, dariam uma vista de olhos. Desvalorizaram. Outros, procurando falhas, inventaram missões secretas, intenções para cargos ministriais e atribuiram-lhe cognomes mais ou menos jocosos. O sistema não gosta de gente que foge ao controlo, nem aprova iniciativas disruptivas: tem de ser tudo “by the book”, sem surpresas e seguindo a lógica pré-definida.
Costa Silva não é nada disso, e, por isso, é perigoso. Mas é uma boa ideia do PM António Costa. Se vai resultar, não sei. Mas as hipóteses aumentaram muito com a situação em que vivemos, pois o povo português vai estar, de novo, disponível para reformas difíceis. E as que Costa Silva propõe têm potencial de transformação, depois de devidamente calendarizadas e afetas a fontes de financiamento precisas. E mudam a forma como o país é gerido, dando poder e oportunidade àqueles que apesar de nada quererem da política, sabem fazer, vivem das ideias, andam sempre de cabeça levantada e aceitam missões de curto-prazo porque têm uma uma forte motivação de serviço público. Essa é a única forma de mudar, e mudar o país e o mundo é a missão de um PM. Com António Costa Silva, António Costa esteve muito bem.

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