Opinião – Iniciativas que contam… Ajudar Beirute a Renascer das Cinzas

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Muitas tragédias alheias sobrevoam diariamente o nosso quotidiano e ajudam-nos, ainda que num registo abstrato e longínquo, a relativizar a nossa desgraça. Num ano marcado pelo contexto global de pandemia, ouvimos frequentemente ecoar o impacto de catástrofes naturais, conflitos armados e acidentes que nos comovem e interpelam. As violentas explosões que abalaram Beirute esta semana, destruindo uma parte significativa da capital do Líbano, são disso exemplo e nessa medida contam para o modo como refletimos o mundo.
Independente desde 1943 – um dos Estados mais pequenos do Médio Oriente que faz fronteira com o Mediterrâneo, a Síria e Israel – o Líbano é uma região de antigas civilizações, berço dos fenícios, com mais de 7000 anos de história e uma identidade cultural única em diversidade étnica e religiosa. Desde a sua fundação, existe um acordo de partilha de poder entre comunidades religiosas: o Presidente da República é sempre cristão, o Primeiro Ministro muçulmano sunita e o Presidente do Parlamento muçulmano xiita. Os deputados do parlamento são 50% cristãos e 50% muçulmanos.
Conhecer Beirute, há quatro anos atrás, alargou o meu mundo. Vivi dias intensos entre cidadãos libaneses, cristãos e muçulmanos, num aparente oásis de paz a poucos quilómetros da fronteira Síria.
Soube o que era atravessar check points patrulhados e armados. Compreendi como a violência da guerra civil ( 1975-1990 ) perdurava na paz. Abri a boca de espanto com estátuas da Virgem e de São Jorge em rotundas públicas num país árabe. Senti a tensão de um povo que, sucessivamente ocupado pelos países vizinhos, acolhe 1 refugiado por cada 3 libaneses (na Europa existem 2 refugiados para cada 1.000 europeus e em Portugal 1 por 10.000 ). Percebi porque se chamara a Beirute a “Paris do Médio Oriente”. Assimilei o Mediterrâneo. Aprendi muito!
Vivi a proximidade de rostos e de costumes. Vivi no Líbano a mais forte experiência sobre religião, respeito e tensão. No nosso canto ocidental da Europa parece ser possível, e até natural, viver sem fé. Ali não é. A crença num Deus está na história de cada um, na forma como vive e se relaciona, e em particular no futuro dos seus. Fé e sobrevivência são ali indissociáveis.
Ver como as diferenças convivem, marcando cada uma fortemente a sua identidade, foi uma iniciativa que contou.
O Líbano atravessa periodicamente momentos difíceis – parece ser o destino deste país do médio oriente, construído a partir de equilíbrios comunitários. Com uma situação económica e de dívida pública preocupantes (negoceia desde maio o resgate com o FMI); no meio de uma crise com acusações de corrupção à classe política pelo movimento ‘ras-le-bol’ (‘Estamos fartos’) e num contexto de pandemia, a destruição do porto, vital para a economia do país, e de uma parte significativa da cidade (cerca de 350.000 famílias desalojadas) parece conduzir à inevitabilidade de mais um desastre humanitário no Médio Oriente.
E, no entanto, este país mediterrâneo de diálogo entre cristãos e muçulmanos parece, como dizem os próprios libaneses, ter nas veias o ADN da lendária Fénix, renascendo sucessivamente das suas próprias cinzas. Ora a reconstrução física, económica e política deste país especial, que é o Líbano – com uma comunidade luso-libanesa, que habita no Bairro de Achrafieh, próximo do porto devastado – é fundamental ao respeito pelas memórias civilizacionais da Europa bem como a um desenho geopolítico de paz no Médio-Oriente.
Tim Llewellyn, o veterano correspondente da BBC na área, fazia em 2010 um exame inesquecível no seu livro “Spirit of the Phoenix: Beirut and the Story of Lebanon”: “trata-se de um povo irreprimível capaz de se erguer de novo e de novo das cinzas mas nunca capaz de escapar aos seus vizinhos em guerra e à violência da sua região.”
Que a força do pássaro do fogo faça vingar o renascimento. Todas as iniciativas que ajudem a que se cumpra o mito da Fénix, que se mantenha a convivência equilibrada e delicada entre povos e religiões, serão iniciativas que contam.

(para partilha de informações ou comentários
pf escreva para: iniciativasquecontam@gmail.com)

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