Opinião: Estranha forma de vida

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Quando comecei a escrever este texto estava a ler um livro sobre a história secreta de Amália Rodrigues, alguém que nunca conheci, embora tivesse tido contactos com a sua família do Fundão. Foram estas pessoas que me explicaram como foram as qualidades que a fizeram singrar neste estranho país, onde todos somos obrigados a ter histórias secretas, ficando assim inexplicadas as razões porque muitos nunca atingiram o potencial que todos nos auguravam por força das nossas capacidades.
Teve sorte Amália por ter qualidades que o regime foi aproveitando para conseguir, através de lóbis, que o regime fascista fosse aceite pelas chamadas democracias ocidentais. Assim aconteceu que “A agência logrou promover a gravação de um disco de Amália nos EUA com a versão de Coimbra em inglês, então rebatizada April in Portugal” ( 1 ).
Foi um jogo em que Amália entrou para conseguir progredir profissionalmente com êxito nesses tempos tenebrosos e ainda apoiar presos políticos, nomeadamente os que eram membros do PCP.
Noutras histórias que li, os homens da ditadura faziam-se passar por democratas, escondendo que havia uma polícia secreta que reprimia e uma censura que calava os problemas que o país vivia, incluindo uma guerra colonial e uma emigração em massa, que era o escape para a sobre-exploração dos portugueses nas fábricas e nos campos. Estão agora por essa razão os nossos campos abandonados e muitas fábricas e oficinas fechadas em todo este nosso Portugal, tendo deixado de existir o Portugal cantado por Amália.
Agora o problema é outro pois Portugal continua a esvaziar-se por força dos muitos industriais e outros homens de negócio que só pensam em lucros fáceis, mesmo que à custa do bem-estar e até da saúde dos portugueses. Foi o que esta pandemia sublinhou a vermelho, mostrando muitos focos infeciosos que se multiplicam e se mantêm apesar da DGS, do esforço dos profissionais de saúde e do comportamento exemplar da generalidade dos portugueses
Torna-se por isso difícil o trabalho que o Governo e a da sua chamada Oposição, em opacificar o debate político, que o quer conseguir acabando com debates quinzenais e reuniões do INFARMED, fazendo-o de modo a que ninguém questione os comportamentos pouco cívicos dos Donos do Capital e dos seus serventuários, que vivem bem só porque servem aqueles bem-melhor.
Ficamos assim algo ofuscados pelos muitos milhões que Costa arrancou aos “frugais” para que certos “gastadores” possam continuar a proclamar-se bons gestores, esquecendo corrupções e as falhas frequentes da justiça na tarefa de cuidar com zelo da “Coisa Pública”, incluindo nela a Saúde Pública.
E assim continuamos numa estranha forma de vida como Amália Rodrigues cantou.

( 1 ) Miguel Carvalho – Amália – Ditadura e Revolução,
D. Quixote, Alfragide, 2020, p. 80.

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