Opinião: A lealdade nos Partidos Políticos 

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Partidos Políticos da dimensão e com a história do PSD ou do PS , são evidentemente constituídos por cidadãos que pensam de modo diferente. Essa é, aliás, a riqueza de qualquer organização. Em política, por vezes, muitas pessoas não compreendem que um determinado militante possa divergir ou que um conjunto mais ou menos grande de pessoas , possa ter uma visão diferente para o País, para uma região ou para uma cidade.

É claro que esse respeito pela diferença tem sempre dois sentidos e também é claro que são raros os líderes com capacidade de agregar essa multiplicidade de pensamentos. Nas últimas semanas , destacaria três acontecimentos partidários onde a diferença pela opinião dominante imperou, trazendo um certo ar fresco à política portuguesa que, tantas vezes, é mal tratada pelos partidos políticos.

Essa capacidade dos grandes partidos é que é verdadeiramente a reforma política que precisamos e que muitos reclamam, em detrimento do surgimento de partidos mais radicais e populistas. O primeiro destaque que gostaria de fazer é sobre as declarações de Francisco Assis sobre Pedro Passos Coelho, considerando que , certamente, o País lhe deve a capacidade de liderança e estoicismo por ter herdado uma “quase bancarrota” e ter deixado um País a crescer 4 anos depois.

Esta ideia é a negação de toda uma narrativa socialista ao longo de anos que deve ter feito corar de raiva muita gente famosa. Depois, o segundo acontecimento, é para dar destaque a algumas dezenas de deputados do PS e do PSD que votaram contra o fim dos debates quinzenais com o Primeiro-Ministro, contra as diretivas emanadas pelas Direções Nacionais. Sérgio Sousa Pinto, também do PS, num semanário, chegou mesmo a dizer que a bancada do PS era uma “repartição do Governo”. Não compreendi esta ideia de Rui Rio querer acabar com os debates quinzenais com o PM.

Dos vários argumentos que ouvi, aquele do PM ter de trabalhar em vez de ir, quinzenalmente à Assembleia da República, responder a questões e críticas dos deputados dos vários partidos da Oposição, é, no mínimo, risível. Pode-se argumentar que , em contrapartida, os Ministros irão ao Parlamento com maior frequência, mas isso não substitui a importância dos debates com o Chefe de Estado.

Saúdo todos os que , em liberdade e em consciência, de forma corajosa e transparente votaram contra esta ideia peregrina de menos escrutínio. Finalmente, o terceiro acontecimento em oposição aos diretórios. O PSD de Coimbra em lugar de esperar pelo final do ano ou início de 2021, resolveu votar o candidato do PSD à Câmara Municipal , nas eleições de Outubro de 2021. Um dos atuais destacados militantes da Comissão Política Nacional com ligações a Coimbra, apressou-se, certamente sob o comando do Presidente, a dar algumas entrevistas nos jornais regionais , afirmando que “oficialmente” , o candidato do PSD não está escolhido porque as recomendações não foram seguidas e há que esperar pela decisão superior.

Quem percebe a dinâmica política autárquica de um município como Coimbra, sabe que o trabalho a desenvolver nas aldeias de cada uma das freguesias é enormíssimo e , mesmo partindo agora, já vai com algum atraso relativo à máquina de campanha do Partido Socialista. Coimbra , como quase todas as cidades ou vilas, com excepção do Porto, Lisboa e alguns poucos concelhos com mais de 200.000 habitantes, não aguenta uma decisão sobre um candidato “desafiador” do poder vigente, a meia dúzia de meses das eleições. Quem conhece a dinâmica deste Concelho também sabe que não basta conquistar as elites ou ter um desígnio estratégico consistente.

É preciso um trabalho de sapa em cada uma das freguesias, conhecer os líderes associativos, assim como as populações para que possam ser ouvidas , de forma a que o programa eleitoral não tenha só uma resma de desígnios normalmente entregues a um bom escriba, mas também seja devidamente alicerçado nas necessidades mais locais. Tudo isto, para quem não está no poder, leva muito tempo. A demora e o padrão centralista deste tipo de decisões provoca muitas perdas eleitorais , sobretudo, a quem tem de desafiar quem está no poder autárquico. Isso, claro, se o poder não cair de podre que é o que parece ser a expectativa nacional do atual Presidente do PSD.

Além disso, o candidato escolhido pelo PSD poderá ser o líder inspirador que a cidade e o concelho precisam. Nuno Freitas conhece o concelho, é inteligente, tem carreira profissional própria e poderá trazer ao Concelho de Coimbra uma nova atmosfera de mudança. Se o PSD nacional não perceber que não encontra melhor disponível e não atrapalhar o trabalho político que urge desenvolver, poderá haver mudança.

Neste enquadramento, só não percebo o silêncio da Comissão Política Distrital de Coimbra do PSD que eu pensava estar devidamente afinada com a estratégia de ser necessário começar a trabalhar , o mais cedo possível, nalguns concelhos em que o desafio é grande e complexo.

Em conclusão, ainda bem que há gente na política que tem coragem de discordar publicamente, é transparente e tem lealdade , não a confundindo com obediência acéfala. Por falar nisso, as “manadas” nunca foram bom presságio. Estes três recentes acontecimentos levam-me a acreditar que o pensamento político existe e continua a ser a raiz de uma sociedade mais desenvolvida, ainda que possa incomodar alguns temporariamente mais acomodados.

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