Opinião: Planícies e montanhas abandonadas

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Há umas semanas um jornal diário de circulação nacional, preocupado com o desemprego possível de uma parte importante dos nossos gestores, publicou não só uma entrevista com um gestor que esteve desempregado, mas que assumiu agora um lugar importante num desses bancos acabados de recauchutar, mas também frases sobre outros gestores, cujo futuro está periclitante, procurando todos esconder tal como o entrevistado a parte má do curriculum vitae.
Falou-se também dos muitos sacos azuis do BES que por acaso têm mais cores. E deu-se notícia de um grupo restrito de uma Família, que usava o seu banco, como se fosse só deles a Cosa Nostra. Mas, não dei conta de que falassem de papéis comerciais uma ideia antiga que foi recauchutada há pouco mais de seis anos. Nem ninguém propôs a comemoração dos seis anos da Resolução do BES. Só se recordaram as afirmações dogmáticas de um professor de Finanças, que afiançava nessa altura que estava tudo bem no Banco que sabia como se faziam as coisas. Havia por lá gestores vindos de Chicago.
Nenhum holandês viu que era isso que fazia funcionar mal o País. Só tinham visto que o nosso problema eram “mulheres e vinho”. Nem sequer falou de “bons gestores” que deslocalizam as sedes das empresas para pagarem impostos na Holanda por estes aí serem mais em conta.
Muito menos se recordou que Charles François du Périer, conhecido como Dumouriez tinha falado em 1775 d’: “As planícies do Alentejo, desde Ourique até Armada (sic = Almada), e as da Beira, para além de Lisboa, Leiria e Coimbra até ao Porto, estão abandonadas pela preguiça dos habitantes e tornam-se arenosas, áridas, pestilentas”. 1 Nem nada se dizia sobre as origens do nosso atraso e das razões que levam a TAP a precisar de injeções de capital que, “por mero acaso”, não se destinam a eliminar vírus nem bactérias. Só a auxiliar alguns maus gestores a manterem-se à tona de água.
Nem também ninguém relacionou tudo com as más condições em que funcionam as nossas instituições públicas essenciais como a Educação e a Saúde. Nem agora que os turistas de todo o mundo são aconselhados a irem para muito lado, menos para Portugal.
Foram muitos deles para Espanha, onde parecem estar incontrolados e a causar problemas de saúde pública quanto ao COVID 19.
Em Portugal, são os nossos jovens que fazem festas em locais ermos sem controlo e sem distanciamento social. Dizem, mostrando como a Educação, que receberam, não foi suficiente para os afastar da prática de comportamentos de risco.
E por todo o lado gente que comanda dá-lhes o exemplo.
Somos por isso confrontados com recorrentes notícias de mais mortes por COVID 19.

1 Castelo Branco Chaves – Os livros de viagens em Portugal no Século XVIII e a sua projeção europeia, MEIC, Secretaria de Estado da Investigação Científica, Lisboa, 1977, p. 44.

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